Divisão dos Arquivos

O Blog Pablo Neruda Brasil está apresentado em quatro seções obedecendo à data de publicação da matéria:

Arquivo Cecilia Zokner

Os breves textos sobre a poesia de Pablo Neruda foram publicados sob a rubrica Literatura do Continente no jornal O Estado do Paraná, Curitiba e fazem parte, juntamente com outros textos versando sobre Literatura Latino-americana, do Blog http:\\www.literaturadocontinente.blogspot.com.br. Os demais, em outras publicações.

Arquivo Adriana

Chilena de Concepción, amiga desde 1964, quando convivemos em Bordeaux, ao longo dos anos me enviou livros e recortes de jornal sobre Pablo Neruda. Talvez tais recortes sejam hoje, apenas curiosos. Talvez esclareçam algo sobre o Poeta ou abram caminhos para estudos sobre a sua obra o que poderá, eventualmente, se constituir uma razão para divulgá-los.

Arquivo Delson Biondo

Doutor em Literatura na Universidade Federal do Paraná. No ano do centenário de nascimento de Pablo Neruda, convidei Delson Biondo, meu ex-aluno do curso de Letras para trabalharmos sobre “Las vidas del Poeta, as memórias de Pablo Neruda”, constituídas de dez capítulos, publicados, em espanhol, na revista O Cruzeiro Internacional, no ano de 1962. Iniciamos o nosso trabalho com a sua tradução, visando divulgar, no Brasil, esse texto do Poeta que somente anos mais tarde iria fazer parte de seu livro de memórias Confieso que he vivido. Todavia, várias razões impediram que a tradução fosse publicada no Brasil, mas continuamos a trabalhar sobre “Las vidas de Poeta” no que se referia aos aspectos formais comparativamente a esses mesmos textos que passaram a fazer parte de Confieso que he vivido. Além desse estudo comparativo, pretendíamos nos aproximar, minuciosamente de cada um dos capítulos de “Las vidas del Poeta”. A comparação foi realizada e o estudo do primeiro capítulo concluído. Estávamos já, terminando a redação do estudo do segundo capítulo quando Delson Biondo veio a falecer em maio de 2014. Assim, as notas comparativas dos textos nerudianos e o estudo do segundo capítulo de “Las vidas del Poeta” não foram concluídos. Penso que a eles nada devo acrescentar.

Arquivo Aberto

Arquivo Aberto à recepção de trabalhos escritos em português ou espanhol que tratem da obra de Pablo Neruda, obedeçam às normas da ABNT e sejam acompanhados de um breve curriculum do autor. Os trabalhos poderão ser enviados para publicação neste Blog pelo e-mail pablonerudabrasil@gmail.com.

15 de agosto de 2004

O livro das respostas

            Na capa, os Andes e o Morro do Careca – fotomontagem de Marcelo Mariz – numa proximidade surpreendente. Diluindo as fronteiras, entre as montanhas nevadas e o morro tropical, o título do livro e seu sub-título: O livro das respostas (em face do Libro de las preguntas de Pablo Neruda). Respostas estas de Diógenes da Cunha Lima que, deixando-se impregnar, diz Edon Nery da Fonseca, no prefácio do livro, pela atmosfera de sonho e magia que transmite Pablo Neruda no seu Libro de las preguntas, se mostram verdadeiras pequenas maravilhas.


            Diógenes da Cunha Lima, o poeta de Lua 4 vezes Sol, Instrumento Dúctil, Corpo breve, Natal, Poemas e Canções, Poemas versus prelúdios, Pássaros da memória, neste Livro das respostas , partindo do verso de Pablo Neruda e nele se entrelaçando, deixa constância de poemas  tão fascinantes como aqueles que o desencadeiam. Porque, se nos versos de Pablo Neruda se percebem caminhos já trilhados – a natureza, as preocupações políticas, algo de troça e o grande amor à vida – nessa longa e intensa vida que foi a sua,  não surpreendem as reiteradas menções ao outono. Sim, o não serem marcadas pela melancolia de quem já muito viveu mas pela alegria e pelo fantasioso matizados de exuberantes amarelos. E, assim, resultam as respostas – cada poema antecedido de um travessão – que lhes dá Diógenes da Cunha Lima: submissas à alegria, ao lirismo, à sabedoria e ao sorriso compartido.
Pergunta Pablo Neruda:  Te hás dado cuenta que el otoño / es como una vaca amarilla? E  o poeta brasileiro responde sem peias: - Percebi. Pelo leite derramado. Quando o poema se enriquece com as palavras pájaro amarillo, limones, nido (Cuál es el pájaro amarillo / que llena el nido de limones?) a resposta se aprofunda no lirismo:  -O pássaro infiel. Por vezes, as respostas precisam das perguntas. Em -Estão em potes dourados / de melaço nos engenhos, os versos feitos de esplêndida combinação de palavras necessitam da pergunta: Donde están los nombres aquellos /Dulce como torta de antaño? Outras vezes, cobram vida, independentes das perguntas que a originaram. Em Si se termina el amarillo / con que vamos a hacer el pan?, Pablo Neruda relaciona cor e alimento, constituindo-se a ausência de lógica a substância poética. Na reposta de Diógenes da Cunha Silva, - Faremos o pão da terra. Um dia vamos ser seu pão, a relação encontra respaldo lógico na tradição (a terra dá frutos, o trigo é fruto da terra) como, igualmente, o encontra nesse voltar à terra (e se tornar seu alimento), quando  o poético emerge, então, num significado maior e mais profundo. Há o caso em que a pergunta parece não ter resposta (Se alejarán em el otoño / las golondrinas de la luna?), mas o poeta brasileiro a encontra e convicto, informa: - No outono as andorinhas / farão ninhos inaugurais /  no outro lado da lua. Também o caso em que, conservando as três palavras chaves da pergunta, lhes muda a função sintática, originando uma situação diferente,  ainda  que, sem se  afastar da idéia presente na pergunta de Pablo Neruda: (Los peluqueros del otoño / despeinaron los crisântemos?: - De repente, em multidão / os crisântemos / despentearam o outono). Sem mencionar o outono mas, ainda assim, a lembrá-lo na referência à folha amarela, (Por qué no dar uma medalla / a la primera hoja de oro?), Pablo Neruda lhe confere o valor definitivo do metal precioso que a torna, primícia que é,  merecedora do prêmio.  Diógenes da Cunha Lima, ao responder, combina três palavras da mesma rede de significados-  desdouro, dourado, ouro – que nos seus versos se opõem (- Para não haver desdouro: o dourado despreza o ouro) e lhe confere uma razão que o sentido lúdico do poema de Pablo Neruda não fazia prever. E, ricamente expressiva, a pergunta  Por qué se suicidan  las hojas  amarillas?, na melancólica relação entre o declínio da vida e um eventual desejo de auto aniquilamento. Dá origem a não menos rica e expressiva resposta de Diógenes da Cunha Lima: -Com saudades de Van Gogh em que junto à palavra saudade, tida por intraduzível, se alinham as reminiscências dos tons de amarelo presentes nos quadros de Van Gogh, e a sua auto-mutilação e posterior suicídio.
            Num país de imensas dimensões e em que as elites (ou os que assim se consideram) voltam as costas para os países limítrofes, ignorando–lhes a expressão, surge como algo de  especial significado esta relação, feita de palavras, que um poeta do nordeste brasileiro instaura com um poeta do extremo sul do Continente. Precioso diálogo que prescinde de cenário e da presença e ignora o tempo e faz desabrochar inesperadas leituras num itinerário que os poemas de Diógenes da Cunha Lima fazem plenos de encantamento.

Cecilia Zokner in Literatura do ContinenteO Estado do Paraná, Curitiba, 15 de agosto de 2004


8 de agosto de 2004

O Poeta perguntador: Crepusculario

            Pablo Neruda tinha dezenove anos quando publicou seu primeiro livro, Crepusculário. Da emoção de ver seus versos impressos, ele irá contar no capítulo segundo de “Las vidas del Poeta. Recuerdos y memórias”que escreveu para a revista O CRUZEIRO Internacional, em 1962. Livro “ingênuo e sem valor literário”, diria, anos depois a Alfredo Cardona Peña que registrou esse testemunho na revista Cuadernos americanos (dezembro de 1950).  No entanto, essa edição, vendida por quinhentos pesos o que, na época, equivalia a menos de cinco dólares e ilustrada por Juan Gandolfo, foi recebida com aplausos pela crítica. Prudente, Pablo Neruda reconhecia, no primeiro poema do livro que a sua voz se erguia “em rosas trêmulas”, nem “pomposas”, nem “fragrantes”. As primeiras de seu “desconsolado jardim adolescente”.  Modéstia em que se entrelaçam a idéia das primícias e o reconhecer-se jovem e triste, revelando como que um pedido de compreensão, dirigido a um “irmão caminhante”. Interlocutor que o Poeta imagina seu semelhante nessa busca que empreende. Como a ele, também à mulher (“carne e sonho”, a menina, a camponesa), à irmã, ao pai, ao irmão de alma, ao amigo, aos amigos, a alguém indeterminado, ao amor,  a ele mesmo, ao velho cego, às pontes, ao ferro, ao vento do mar, à infelicidade, a Deus  dirá  de suas inquietações  e perplexidades diante da vida; de sua melancolia frente ao passar do tempo; de suas ânsias e devaneios amorosos; de sua visão de mundo e preocupação com os seres inanimados; de  seus laços afetivos com o pai e com a irmã, de sua ligação solidária com os assim denominados amigos; de sua admiração pelo que Deus criou. E, muitas vezes, os interpela. Um recurso - fazer perguntas, dirigir-se a alguém - que irá conservar ao longo dos anos, expressão de seu desejo de compartilhar  com os demais o que lhe vai na alma. Incertezas e melancolias próprias dos primeiros anos às quais se acrescem aquelas da criança privada de sua mãe e que se sente, irremediavelmente, abandonado, pontilham os poemas de Crepusculario. O Poeta as enuncia a si mesmo (“Para que dizer a canção/de um coração que é tão pequeno?”, “Que eu com os olhos quebrados sigo um caminho sem fim/ Por que dos pensamentos, por que da vida em vão?”, “Vai-se a poesia das coisas/ ou não a pode condensar a vida?”); ou, se projetando no outro (“[...]cego, que espera da dor?”, “[...] que podes esperar ?”, “cego, sempre será teu ontem amanhã?”, “Aonde vais agora?”.Ou, ainda, dividindo a desesperança ( “Homens de coração ingênuo/O que mais podemos esperar?”). Antropomorfizando as pontes, lastima-lhes o destino de permanecer imóveis quando “as paisagens, a vida, o sol, a terra”, seguem a viagem sem fim. E as perguntas a elas dirigidas, que o termo maldição introduz, são, na verdade, aquelas que o espanto de viver – e ter consciência de que tudo é transitório  - origina. Alguma vez procura respostas, como no poema “Saudade”, em que busca o significado da palavra, estranha ao espanhol, em “dicionários empoeirados e antigos/ e em outros livros”,  em que pergunta a alguém que, também, a ignora.
E, se entre as perguntas, existe aquela que jamais será respondida ( “Deus – de onde tiraste para acender o céu/ este maravilhoso crepúsculo  de cobre?”), outras há, enigmáticas, recônditas, fascinantes  que somente o engenho e arte de um outro poeta poderá responder.


Cecilia Zokner in Literatura do ContinenteO Estado do Paraná, Curitiba, 8 de agosto de 2004

18 de julho de 2004

Nerudianas: “Ode ao beija-flor”


            No dia 5 de fevereiro de 1948, o Tribunal de Justiça do Chile emitiu uma ordem de prisão contra Pablo Neruda que, passa, ajudado por amigos e durante meses, a viver escondido no seu país. O relato sobre esse período em que viveu de casa em casa, ludibriando a polícia, até atravessar os Andes a cavalo e chegar a San Martin de los Andes, na Argentina, foi feito por seu amigo José Miguel Varas no livro Neruda clandestino (Santiago, Alfaguara, 2003). Baseando-se, principalmente em três textos – o de Jorge Bellet, publicado na revista Araucária, o de Victor Bianchi, “Misión al lago Maihue” e o discurso de Pablo Neruda quando da entrega do Prêmio Nobel – além de outros, consultou, também, a imprensa da época e ouviu o testemunho de pessoas que, nesse período de clandestinidade da vida do Poeta, com ele conviveram. Entre eles o de Jaime Perelman que na época tinha doze anos e que cedeu o seu quarto e sua cama, para que os pais pudessem abrigar o Poeta e Delia Del Carril. Lembra-se que, fechados em casa, Pablo Neruda escrevia o Canto General e sua mulher passava o dia desenhando mãos e cavalos em grandes folhas de papel. À tarde, ao chegar das aulas ele e o irmão conversavam com o Poeta que lhes contava histórias de elefantes, de aves, de macacos ou improvisava cenas teatrais em que eram os donos dos textos e das atuações. Porém, desse convívio, o que mais o impressionou foi a “Operação beija-flores”. Pablo Neruda havia observado que nas trepadeiras floridas da casa vizinha apareciam muitos beija-flores para se alimentar. Pensou em atrai-los para os galhos secos do arbusto que estava perto de uma janela da casa onde se hospedava, explicando o seu plano para os meninos: primeiro fazer flores de papel colorido e, então, colocar sob elas, presas com arame, ampolas de injeção cheias de mel diluído na água. Ainda que toscas e de tamanhos diferentes, os beija-flores se deixaram enganar e iam diariamente sorver o mel das estranhas flores para alegria dos meninos e do Poeta.
            Anos depois, em 1955, Pablo Neruda compõe as odes que publica sob o título Nuevas Odas elementales (Buenos Aires, Losada, 1956). Entre as cinqüenta que dele fazem parte, a “Oda al pica-flor”. À semelhança de outros que fazem parte do livro, é um longo poema. Muito breves como a acompanharem o vôo relâmpago do pequeno pássaro, os versos o definem, aproximando-os da água, do fogo, do arco-íris. Dizem de seus movimentos (minúscula bandeira voadora, vibração do mel / raio de pólen) e metaforicamente, o descrevem numa sucessão de imagens (semente do sol, fogo emplumado, fio de ouro, fogueira verde). Entre elas, o Poeta o interpela (o que es, / de onde te originas?), numa pergunta cuja resposta ele próprio encontra. E perguntas e respostas expressam essa inclinação que possui o Poeta de se maravilhar diante das coisas e dos seres. Imagina-o nas antigas eras (na idade cega do dilúvio), no percurso mágico das transformações (a rosa congelada em antracita; o fragmento desprendido do réptil: última / escama cósmica, uma / gota / do incêndio terrestre para ser, agora, feito de beleza. Resposta a qual se encadeiam os dizeres sobre sua vida (dormes numa noz, giras / como luz na luz / ar no ar), sobre sua valentia (o falcão / com sua negra plumagem / não te amedronta), sobre as suas cambiantes cores (escarlate, amarelo, verde, laranja, negro).
            Na inigualável invenção com que se serve das palavras, o Poeta faz nessa ode explodirem nuanças de cor e danças do vôo, recriando o encanto sempre tão efêmero que é a presença de um beija-flor. Pequeno ser supremo, milagre que arde desde a Califórnia até a Patagônia, ele diz e ao esboçar a geografia americana, não lhe nega esse destino de Continente massacrado que os últimos versos do poema não deixam esquecer quando à luminosa figura do beija-flor, Pablo Neruda contrapõe a sombra ao definir o beija-flor também como pétala dos povos que calaram, / sílaba do sangue enterrado, / penacho / do antigo / coração/submerso.

Cecilia Zokner in Literatura do ContinenteO Estado do Paraná, Curitiba, 18 de julho de 2004


11 de julho de 2004

El infructuoso clamor de Neruda

FRAGMENTO ESCOGIDO DE REVISTA CEP.
A propósito de "Geografía infructuosa"
Oscar Hahn
Poeta y ensayista. Profesor de Literatura de la Universidad de Iowa.

Textos manuscritos
y con dibujos del
poeta Pablo Neruda.
Curiosamente, y por el solo efecto de la oportunidad, uno de los libros más esperados de Pablo Neruda fue Geografía Infructuosa. En octubre de 1971 el poeta chileno había obtenido el Premio Nobel de Literatura y ésa fue su primera publicación posterior al premio. Era natural que se creara una cierta expectación por saber qué contenía el nuevo poemario. No obstante, el impacto del Nobel no pudo hacerse sentir en esos textos, por el simple hecho de que casi todos estaban terminados cuando a Neruda se le concedió el galardón.

La escritura de Geografía Infructuosa se inició en 1971, durante sus viajes en automóvil por Chile, y se completó ese mismo año, mientras se desempeñaba como embajador de su país en Francia.

Fue publicado por la editorial Losada de Buenos Aires en mayo de 1972.

Yo objeto

Dos aspectos omnipresentes en su obra recurren en este libro: la autorreferencia y el mesianismo. A diferencia de otros poetas, que hablan desde el yo, pero cuyo tema no es su propio yo, aquí el objeto de los poemas es el mismo Neruda. El segundo aspecto es el carácter mesiánico, que no lo abandona ni siquiera en los momentos de tribulación. El poeta declara que tiene una misión que cumplir y se considera un elegido. Pero su misión no es religiosa, sino política y social: "Mis deberes son duramente diurnos: / debo entregar y abrir nuevas ventanas / establecer la claridad invicta / y aunque no me comprendan, / continuar / mi propaganda de cristalería", dice en el poema "El Sol". Esta composición es prácticamente una reescritura de la "Oda a la Claridad", incluida en Odas Elementales (1954). El programa es el mismo: "Debo / cumplir mi obligación / de luz (...) Yo debo repartirme / hasta que todo sea día, / hasta que todo sea claridad / y alegría en la tierra". Algo muy evidente, sin embargo, es la tensión que existe entre la voluntad de Neruda de realizar una poesía de la luz, la alegría y la esperanza, y sus demonios interiores que tiran hacia el lado de la oscuridad, la tristeza y la desesperanza.
Y Pablo Neruda lo reconoce cuando dice no entender por qué a "un enlutado de origen" le ha tocado cumplir esa misión. En este orden de cosas, es bastante irónico que uno de los poemas más tristes de Geografía Infructuosa lleve el título de "Felicidad".
También se reitera aquí esa peculiar forma de panteísmo tan nerudiana, que podríamos llamar "ego-panteísmo". Ya no es Dios el que está presente en la naturaleza, sino el poeta mismo: "Me repartí en fragmentos / que entraban y salían de otras vidas, / formé parte del pan y la madera, del agua subterránea, del fuego mineral". Abrumado por su condición telúrica, teme que no lo acepten como prójimo del hombre común y corriente.
También se reitera aquí
esa peculiar forma de
panteísmo tan nerudiana,
que podríamos llamar
"ego-panteísmo".
Ya no es Dios el que
 está presente en
la naturaleza, sino el poeta.

Foto:Fundación Neruda
Un tema que Neruda había desarrollado en el poema "Unidad", de Residencia en la Tierra, reaparece ahora vinculado a la conciencia de la muerte. Es el problema de la identidad del ser dentro de la sucesión temporal, y el asombro de que los individuos conserven su unidad, a pesar de la fragmentación que les provoca la intermitencia de los días. Esto se observa, por ejemplo, en el poema que precisamente se llama "Sucesión": "Muerte a la identidad, dice la vida: / cada uno es el otro, y despedimos / un cuerpo para entrar en otro cuerpo". Un tema similar aparece en los poemas de Francisco de Quevedo que Neruda había presentado en 1935 con el nombre de Sonetos de la Muerte...
Como hemos dicho, Geografía Infructuosa fue iniciado en 1971, meses después del triunfo del socialista Salvador Allende. Neruda había participado activamente, primero en la campaña electoral y después en las concentraciones populares que celebraban al nuevo gobierno, y vio desde muy cerca esos "miles de ojos" a los que hace referencia. Uno habría esperado entonces que un libro suyo tan cercano a esas fechas se inclinara hacia la poesía de la multitud.
Pero el poeta propone y la vida dispone, porque Geografía Infructuosa conjuga de una manera imprevisible los dos aspectos que Neruda subrayaba a propósito de Residencia en la Tierra: "la soledad de un forastero" y "un mundo violento y extraño". Sólo que ahora el forastero es el "exiliado" en Francia, y lo violento y extraño no es el mundo que lo circunda, sino la enfermedad que ha invadido su cuerpo. Por eso, contradiciendo los planes de Neruda, el libro acaba siendo un diario de vida interior -sin multitud, sin luz, sin alegría-, cuyas páginas registran el infructuoso clamor de un solitario a quien la muerte acecha.

Arquivo Adriana, El Mercurio, Artes y Letras. Domingo 11 de julio de 2004


Nerudianas: Ode à colher

            Em 1954, Pablo Neruda publica Odas elementales, resultado de seu desejo, assim o explica em Confieso que he vivido, de reescrever muitas coisas já contadas, ditas e reditas. Foi um livro muito bem recebido pela crítica, mesmo daquela que, até então, lhe havia sido adversa. Nele revelou, como nos que se lhes seguiram, Nuevas odas elemementales (1956) e Tercer libro de las odas (1957), um novo rumo na sua poesia, um dos seus mais ricos ciclos poéticos. Com admirável claridade e alegria, busca mostrar a beleza das coisas simples, aceitando o dever que acredita ser o do poeta: cantar para todos e, com o seu canto, dar um sentido à vida.
            “Oda a la cuchara” (Ode à colher) pertence ao Tercer libro de las odas, cujo primeiro poema, “Odas de todo el mundo”, como a “Ode à crítica I” e “Ode à crítica II” (respetivamente de Odas elementales e de Nuevas odas elementales), é um dos manifestos desse lirismo que pretende doutrinar, com versos: o que é belo também é um ensinamento para os homens. Como o pregão de um mascate – Eu vendo odes, “De tudo / um pouco / tenho / para todos – Pablo Neruda as oferece: elas são de todas as cores e tamanhos, seráficas, selvagens, finas / enroladas / como arame ou de inclinação dolorida / cobertas / pelo / aroma / enterrado / dos lilás. Um universo em que se misturam as escuras alegrias infundadas, as coisas do coração partido, com a simplicidade do cotidiano, presente no tomate, no cimento, nos trens, na colher.
            A estrofe inicial da “Ode a la cuchara” remete a esse querer do Poeta em transmitir ensinamentos. Nos primeiros versos, define a colher como a concha, a mais antiga mão do homem, cuja forma, na madeira ou no metal de que é feita, deixa perceber, ainda, o molde / da palma / primitiva [...], oco nascido da palma de sua mão, ao qual o homem acrescenta um braço de madeira. Assim, espalhou-se por itinerários feitos de montanhas, rios, barcos e cidades, castelos e cozinhas onde o difícil – algo na aparência tão óbvio, mas que o Poeta não deixa por dizer – foi ela juntar-se com o prato do pobre e com sua boca.
A quinta estrofe é feita da voz do Poeta , não mais a defini-la, cada / vez / mais / perfeita, a lembrar que, pequenina, na mão da criança, lhe oferece o mais antigo / beijo da terra /[...], porém a assumir um coletivo indicado pelo verbo, na primeira pessoa do plural, que propõe o tempo de uma nova vida. Os verbos lutar e cantar, indicando as ações necessárias, num gerúndio a expressar continuidade, e o verbo será a expressar a certeza desse mundo sem fome que o Poeta vislumbra. E que imagina imenso com todos os pratos na mesa, um vapor oceânico de sopa e um total movimento de colheres. O alimento, um direito de todos os homens como a beleza e a alegria, representada pelas flores, acrescidas a essa mesa posta e farta. Flores humanizadas pelo adjetivo felizes que envolve também o alimento (a sopa fumegando) e aos que dele usufruem (compreendidos no total movimento de colheres). Significado luminoso e em acorde com o pensamento do Poeta ao almejar uma sociedade sem castas. E, em acorde com os primeiros percursos da colher ao abrigar a água e o sangue / selvagem / palpitação / de fogo e caçada e a herança silenciosa, / das primeiras águas que cantaram. Na sua voz, que deseja ensinar, se mistura a que procura o interlocutor (Sim, colher, diz um de seus versos) e a que exprime a sua esperança e a de outros na utopia de entrever o mundo sem fome. E iluminado pela beleza das flores felizes.

Cecilia Zokner in Literatura do Continente, O Estado do Paraná, Curitiba,  11 de julho de 2004


6 de junho de 2004

A emoção da manhã

Navegaciones y regresos foi publicado pela editora Losada de Buenos Aires em 1959. Na verdade, é o quarto livro das odes que Pablo Neruda começara a escrever em 1952 e que marcam o novo rumo de sua poesia: cantar as coisas simples para homens simples. Uma poesia didática, diz Emir Rodríguez Monegal (El viajero inmóvil, Buenos Aires, Losada, 1966), cujo fim é ensinar, mostrar, descrever. Nelas, Pablo Neruda canta o mundo que o rodeia e que, de alguma forma, o impressiona seja o ar, o fogo, o mar, o amor, a alegria, a claridade, os animais, as plantas, as coisas.
        “Oda a una mañana del Brasil”está entre aquelas que resultaram de uma vivência. Fruto das emoções de que foi impregnado diante de uma exuberante natureza tropical que, no poema de seis estrofes, se mostra nas cores e no movimento dos seres que a habitam. Nada mais prosaico do que o primeiro verso: Esta é uma manhã do Brasil. Na sua claridade, o Poeta se insere – Vivo dentro de um violento diamante, / toda a transparência / da terra / se materializou / sobre / minha testa  – como um ser especial com a marca na testa que o privilegia e num mundo mágico que é cercado pela floresta e iluminado. Mundo que mal esboça, nele inscrevendo, porém, a vida que emerge no crescimento das árvores, dos insetos, dos dias para se ampliar no universo imenso em que todas as cigarras que existem desde que existe o mundo, se unem para cantar. Apenas nas borboletas, se fixam os versos da terceira estrofe. Elas se movem no ar, nas flores, no nada: baile feito de cores que o Poeta, ingenuamente, enumera. Retorna ao ciclo da vida, na quarta estrofe, outra vez ao verde, a lembrar a mata e na referência a um amplo rio / que se despenca / em plena solidão. Novamente, o movimento dos répteis, dos mil seres que trocam de planta, de água, de pântano, de toca, das aves atravessando o ar aos quais se acrescentam, na quinta estrofe, os sons que são um grito, um canto, / um vôo, uma cascata.
            O meio-dia chega, a luz se espalha e tudo / fica imóvel. Já não é mais, somente, o Poeta a se saber dentro de um violento diamante, impressão que sente diante dessa vibrante e imensa luz, mas, no tempo que se detém e em que tudo, a terra, o céu, a água entra na sua caixa de diamante. Como um círculo no qual se encerra um universo, contido nos pequenos seres e nas suas vozes, na correnteza do rio, na luz.
            E a metáfora (cristal verde do mundo para significar floresta; voz de mel, de sal, de serraria, de violino delirante para o canto das cigarras). E as comparações (se estende / a luz como se tivesse /nascido em novo rio / que corresse e cantasse enchendo o universo, ampla é a claridade como uma nave / do céu, vitoriosa). São recursos que, assim como esse uso do adjetivo em combinações inusuais – violino delirante, meio-dia sossegado, aves abrasadoras, violento diamante – ou o seu acúmulo diante de um substantivo (voadoras, sucessivas e remotas para borboletas) se alternam com a simplicidade inscrita em outros versos, para transmitir a emoção da beleza. Para o Poeta ela é essencial e ao afirmá-la e ao descrevê-la a deseja para todos.
            Ao partir sempre de uma experiência concreta que deseja compartilhar, o ciclo das odes, com versos que expressam a crença na vida e a confiança no futuro, é um dos mais ricos e mais pessoais do Poeta. Pablo Neruda, para quem as formas e as cores e os perfumes e os sons que procura apreender são sempre plenos de significados, nessa “Oda a una mañana del Brasil”, se deixa, apenas, maravilhar.


Cecilia Zokner in Literatura do ContinenteO Estado do Paraná, Curitiba, 6 de junho de 2004

1 de junho de 2004

Pablo Neruda e o Capitão

No dia 18 de julho de 1943, estava sendo enterrada na cidade do México, Leocádia Felizardo Prestes para descansar de uma vida de amargurada e trabalhosa velhice. O filho preso, Olga, sua mulher, judia alemã, entregue, pelo governo brasileiro aos nazistas e levada, do Rio de Janeiro para Hamburgo, num cargueiro que – assim diz Jorge Amado em Vida de Luis Carlos Prestes: O Cavaleiro da Esperança –, “reproduzia as viagens dantescas dos navios negreiros”.  Logo ao chegar na Alemanha, presa em Barnimstrasse, deu à luz a uma menina que será criada sem alimento suficiente, sem condições de higiene, até pouco mais de um ano. Numa luta ferrenha, ajudada pelos pedidos, protestos, clamores, chegados de todas partes, a avó irá resgatá-la da prisão, mas a luta em prol da liberdade do filho não a deixa, ainda, calar-se. É impedida de voltar ao Brasil. No México, onde foi recebida, vive na incerteza e na angústia de saber que, no Brasil, estão martirizando o seu filho. Quando morre, erguem-se vozes, pedindo ao governo brasileiro alguns dias de liberdade para Luis Carlos Prestes – o general Lázaro Cárdenas, ex-presidente do México, garante com a própria pessoa, a sua volta para a prisão – assistir ao funeral.
Pablo Neruda que, no México, há três anos, representava, como cônsul, o seu país, expressa ao embaixador do Brasil, esse desejo que é de tantos e recebe como resposta – subterfúgio sempre tão usado para denegrir o inimigo político – que Luis Carlos Prestes estava detido por delitos comuns. O poeta polemiza, publicamente, com ele. Era o tempo da França invadida pelos alemães, era o tempo de Estalingrado e na sua intensa atividade criativa e política, já se mostrava evidente que, em Pablo Neruda, o poeta e o combatente eram inseparáveis. Getúlio Vargas se recusa em atender o pedido que lhe fora feito e Pablo Neruda, contrariando conselhos de amigos para que evitasse, como representante de seu governo, de se expor às críticas, comparece ao enterro de Leocádia Felizardo Prestes, levando flores e um poema.
Um longo poema que, no dia seguinte, é publicado na imprensa mexicana e fará parte, como “España en el corazón”, “Canto a Stalingrado”, “Nuevo canto de amor a Stalingrado” “Canto a los ríos de Alemania”, entre outros, de Tercera residencia (Buenos Aires, Losada, 1947), livro que reúne poemas pertencentes ao ciclo da Guerra da Espanha e da Segunda Guerra Mundial e, também, os desafiantes versos em defesa de Tina Modotti, e aqueles que enaltecem a Simon Bolívar e a Luiz Companys. A mãe morta, o filho preso, impedido, pela vontade expressa de um ditador, de estar presente no enterro, a inutilidade dessa prisão para a luta que se trava em prol de mudanças, que nada irá impedir de ocorrer, são inequívocos motivos para o poeta e seus claros, constantes e incansáveis compromissos políticos. E nos versos que, então, escreve, mais uma vez, procurando a justiça, a inspirada qualidade e a profunda dimensão lírica ultrapassam os limites de um simples registro de fatos deploráveis.
Em Confieso que he vivido, Pablo Neruda narra o episódio que, assim como a tantos, o indignou faz menção a esse poema “em honra de dona Leocádia, em lembrança de seu filho ausente e em execração ao tirano” e se refere à sobriedade dos primeiros versos e do tom violento que a eles se acresce, para designar o “déspota brasileiro”. No título, “Dura elegia”, significados possíveis do adjetivo – áspero, implacável, inexorável – e o gênero poético, “canto plangente”, sob o qual se abriga o poema.
Nove estrofes de um número desigual de versos, o compõem. Inicia-se com um vocativo, “Senhora” que, não apenas deve ter suscitado emoção entre os presentes da cerimônia fúnebre, ao ser lido, como guarda, ainda, grande potencial lírico que o cruel, injusto e arbitrário desencontro entre mãe e filho torna perene. E, imediatamente, lhe confere o poeta o invejável feito de ter tornado, pelo seu filho, a América bem maior. Dando voz a todos aqueles que desejam tê-la, assume, então, a voz coletiva que lamenta a ausência do filho, testemunha que muitos foram os que vieram para suprir o adeus negado e invoca os libertários da América, estejam eles vivos ou mortos, para ocupar esse lugar vazio. O uso de um nós, que elude o individualismo para compartilhar dessa herança de luta e infortúnio que foi, por ela, “mãe de pranto, de vingança, de flores”, “mãe de luto, de bronze, de vitórias”, deixada; para seguir-lhe o exemplo de “mãe de fogo e de cravos”, de “látegos” e de “espada”; para jurar que não haverá pausa – nem sono, nem sonho – até que seu filho volte. Para reafirmar, no possessivo repetido, serem todos donos do Continente e reiterar que o combate, que se trava, é insubmisso. E para louvar, engrandecido pelo caminho que percorre e pelo ideal que busca, a Luiz Carlos Prestes. Um caminho que obstáculos não cerceiam: “Não há cárcere para Prestes que esconda seu diamante”. Que vontades – a do “pequeno tirano”, “com suas pequenas asas de morcego frio”, com seu “turvo silêncio de rato” ou de “aranha implacável” – não vencem. E um ideal que o situa como “grande irmão”, ao lado dos “pais da América: “heróis coroados de fúria, de neve, sangue oceano, tempestade e pombas” e merecedor das enaltecedoras, encomiásticas qualidades que emergem em metáforas – é um “rio puro de águas colossais”, é uma “árvore de infinitas raízes” – e em símiles para dizer de seu coração a sobressair, “através das grades de ferro da prisão”, “como nas grandes minas do Brasil a esmeralda”, “como nos grandes rios do Brasil a correnteza”, “como brasa de centelha e fulgores”.
Se o poema é incisivo e, sem peias, chama de tirano o governante brasileiro e o compara a seres funestos e se, exasperado, lamenta, a mãe privada de seu filho, na vida e na morte – “Para tua sede negaram a água que criaste” –, esse arbítrio e essa dor se constituem incontestes razões para desalentos. Mas, revelando o amor à vida que nutriu sempre o poeta, como a confiança na felicidade possível, seus versos se iluminam na figura de Luis Carlos Prestes: um condutor de homens, “cheio de luz e de grandeza”, “claro capitão” que, embora ausente e “acorrentado”, conduz o combate. O mesmo combate do poeta e de todos aqueles que se abrigam nesse nós, expressão coletiva , sujeito dos verbos “mudaremos”, “romperemos”(o que machuca e faz sofrer) e dos verbos que prometem um mundo melhor (“inundaremos de luz a tenebrosa cárcere que há na terra”)  e, categoricamente,  a vitória. Ações visando um futuro que o tempo do verbo preconiza e que o advérbio, pleonástico “amanhã” torna certo e próximo. Como certa e próxima a presença do Capitão.
Em 1945, diante dele, que, depois de dez anos, saíra da prisão e das cento e trinta mil pessoas – dizem – que estavam no Estádio Municipal do Pacaembu, Pablo Neruda pede silêncio para as palavras do “Capitão do Povo”. E, Luiz Carlos Prestes, então, falou, recordará o poeta, em Confieso que he vivido, “com a serenidade de um general vitorioso”.


Cecilia Zokner in Jornal da Biblioteca, Ano I, Número 3, Curitiba, junho/agosto de 2004