Divisão dos Arquivos

O Blog Pablo Neruda Brasil está apresentado em quatro seções obedecendo à data de publicação da matéria:

Arquivo Cecilia Zokner

Os breves textos sobre a poesia de Pablo Neruda foram publicados sob a rubrica Literatura do Continente no jornal O Estado do Paraná, Curitiba e fazem parte, juntamente com outros textos versando sobre Literatura Latino-americana, do Blog http:\\www.literaturadocontinente.blogspot.com.br. Os demais, em outras publicações.

Arquivo Adriana

Chilena de Concepción, amiga desde 1964, quando convivemos em Bordeaux, ao longo dos anos me enviou livros e recortes de jornal sobre Pablo Neruda. Talvez tais recortes sejam hoje, apenas curiosos. Talvez esclareçam algo sobre o Poeta ou abram caminhos para estudos sobre a sua obra o que poderá, eventualmente, se constituir uma razão para divulgá-los.

Arquivo Delson Biondo

Doutor em Literatura na Universidade Federal do Paraná. No ano do centenário de nascimento de Pablo Neruda, convidei Delson Biondo, meu ex-aluno do curso de Letras para trabalharmos sobre “Las vidas del Poeta, as memórias de Pablo Neruda”, constituídas de dez capítulos, publicados, em espanhol, na revista O Cruzeiro Internacional, no ano de 1962. Iniciamos o nosso trabalho com a sua tradução, visando divulgar, no Brasil, esse texto do Poeta que somente anos mais tarde iria fazer parte de seu livro de memórias Confieso que he vivido. Todavia, várias razões impediram que a tradução fosse publicada no Brasil, mas continuamos a trabalhar sobre “Las vidas de Poeta” no que se referia aos aspectos formais comparativamente a esses mesmos textos que passaram a fazer parte de Confieso que he vivido. Além desse estudo comparativo, pretendíamos nos aproximar, minuciosamente de cada um dos capítulos de “Las vidas del Poeta”. A comparação foi realizada e o estudo do primeiro capítulo concluído. Estávamos já, terminando a redação do estudo do segundo capítulo quando Delson Biondo veio a falecer em maio de 2014. Assim, as notas comparativas dos textos nerudianos e o estudo do segundo capítulo de “Las vidas del Poeta” não foram concluídos. Penso que a eles nada devo acrescentar.

Arquivo Aberto

Arquivo Aberto à recepção de trabalhos escritos em português ou espanhol que tratem da obra de Pablo Neruda, obedeçam às normas da ABNT e sejam acompanhados de um breve curriculum do autor. Os trabalhos poderão ser enviados para publicação neste Blog pelo e-mail pablonerudabrasil@gmail.com.

18 de julho de 2004

Nerudianas: “Ode ao beija-flor”


            No dia 5 de fevereiro de 1948, o Tribunal de Justiça do Chile emitiu uma ordem de prisão contra Pablo Neruda que, passa, ajudado por amigos e durante meses, a viver escondido no seu país. O relato sobre esse período em que viveu de casa em casa, ludibriando a polícia, até atravessar os Andes a cavalo e chegar a San Martin de los Andes, na Argentina, foi feito por seu amigo José Miguel Varas no livro Neruda clandestino (Santiago, Alfaguara, 2003). Baseando-se, principalmente em três textos – o de Jorge Bellet, publicado na revista Araucária, o de Victor Bianchi, “Misión al lago Maihue” e o discurso de Pablo Neruda quando da entrega do Prêmio Nobel – além de outros, consultou, também, a imprensa da época e ouviu o testemunho de pessoas que, nesse período de clandestinidade da vida do Poeta, com ele conviveram. Entre eles o de Jaime Perelman que na época tinha doze anos e que cedeu o seu quarto e sua cama, para que os pais pudessem abrigar o Poeta e Delia Del Carril. Lembra-se que, fechados em casa, Pablo Neruda escrevia o Canto General e sua mulher passava o dia desenhando mãos e cavalos em grandes folhas de papel. À tarde, ao chegar das aulas ele e o irmão conversavam com o Poeta que lhes contava histórias de elefantes, de aves, de macacos ou improvisava cenas teatrais em que eram os donos dos textos e das atuações. Porém, desse convívio, o que mais o impressionou foi a “Operação beija-flores”. Pablo Neruda havia observado que nas trepadeiras floridas da casa vizinha apareciam muitos beija-flores para se alimentar. Pensou em atrai-los para os galhos secos do arbusto que estava perto de uma janela da casa onde se hospedava, explicando o seu plano para os meninos: primeiro fazer flores de papel colorido e, então, colocar sob elas, presas com arame, ampolas de injeção cheias de mel diluído na água. Ainda que toscas e de tamanhos diferentes, os beija-flores se deixaram enganar e iam diariamente sorver o mel das estranhas flores para alegria dos meninos e do Poeta.
            Anos depois, em 1955, Pablo Neruda compõe as odes que publica sob o título Nuevas Odas elementales (Buenos Aires, Losada, 1956). Entre as cinqüenta que dele fazem parte, a “Oda al pica-flor”. À semelhança de outros que fazem parte do livro, é um longo poema. Muito breves como a acompanharem o vôo relâmpago do pequeno pássaro, os versos o definem, aproximando-os da água, do fogo, do arco-íris. Dizem de seus movimentos (minúscula bandeira voadora, vibração do mel / raio de pólen) e metaforicamente, o descrevem numa sucessão de imagens (semente do sol, fogo emplumado, fio de ouro, fogueira verde). Entre elas, o Poeta o interpela (o que es, / de onde te originas?), numa pergunta cuja resposta ele próprio encontra. E perguntas e respostas expressam essa inclinação que possui o Poeta de se maravilhar diante das coisas e dos seres. Imagina-o nas antigas eras (na idade cega do dilúvio), no percurso mágico das transformações (a rosa congelada em antracita; o fragmento desprendido do réptil: última / escama cósmica, uma / gota / do incêndio terrestre para ser, agora, feito de beleza. Resposta a qual se encadeiam os dizeres sobre sua vida (dormes numa noz, giras / como luz na luz / ar no ar), sobre sua valentia (o falcão / com sua negra plumagem / não te amedronta), sobre as suas cambiantes cores (escarlate, amarelo, verde, laranja, negro).
            Na inigualável invenção com que se serve das palavras, o Poeta faz nessa ode explodirem nuanças de cor e danças do vôo, recriando o encanto sempre tão efêmero que é a presença de um beija-flor. Pequeno ser supremo, milagre que arde desde a Califórnia até a Patagônia, ele diz e ao esboçar a geografia americana, não lhe nega esse destino de Continente massacrado que os últimos versos do poema não deixam esquecer quando à luminosa figura do beija-flor, Pablo Neruda contrapõe a sombra ao definir o beija-flor também como pétala dos povos que calaram, / sílaba do sangue enterrado, / penacho / do antigo / coração/submerso.

Cecilia Zokner in Literatura do ContinenteO Estado do Paraná, Curitiba, 18 de julho de 2004


11 de julho de 2004

El infructuoso clamor de Neruda

FRAGMENTO ESCOGIDO DE REVISTA CEP.
A propósito de "Geografía infructuosa"
Oscar Hahn
Poeta y ensayista. Profesor de Literatura de la Universidad de Iowa.

Textos manuscritos
y con dibujos del
poeta Pablo Neruda.
Curiosamente, y por el solo efecto de la oportunidad, uno de los libros más esperados de Pablo Neruda fue Geografía Infructuosa. En octubre de 1971 el poeta chileno había obtenido el Premio Nobel de Literatura y ésa fue su primera publicación posterior al premio. Era natural que se creara una cierta expectación por saber qué contenía el nuevo poemario. No obstante, el impacto del Nobel no pudo hacerse sentir en esos textos, por el simple hecho de que casi todos estaban terminados cuando a Neruda se le concedió el galardón.

La escritura de Geografía Infructuosa se inició en 1971, durante sus viajes en automóvil por Chile, y se completó ese mismo año, mientras se desempeñaba como embajador de su país en Francia.

Fue publicado por la editorial Losada de Buenos Aires en mayo de 1972.

Yo objeto

Dos aspectos omnipresentes en su obra recurren en este libro: la autorreferencia y el mesianismo. A diferencia de otros poetas, que hablan desde el yo, pero cuyo tema no es su propio yo, aquí el objeto de los poemas es el mismo Neruda. El segundo aspecto es el carácter mesiánico, que no lo abandona ni siquiera en los momentos de tribulación. El poeta declara que tiene una misión que cumplir y se considera un elegido. Pero su misión no es religiosa, sino política y social: "Mis deberes son duramente diurnos: / debo entregar y abrir nuevas ventanas / establecer la claridad invicta / y aunque no me comprendan, / continuar / mi propaganda de cristalería", dice en el poema "El Sol". Esta composición es prácticamente una reescritura de la "Oda a la Claridad", incluida en Odas Elementales (1954). El programa es el mismo: "Debo / cumplir mi obligación / de luz (...) Yo debo repartirme / hasta que todo sea día, / hasta que todo sea claridad / y alegría en la tierra". Algo muy evidente, sin embargo, es la tensión que existe entre la voluntad de Neruda de realizar una poesía de la luz, la alegría y la esperanza, y sus demonios interiores que tiran hacia el lado de la oscuridad, la tristeza y la desesperanza.
Y Pablo Neruda lo reconoce cuando dice no entender por qué a "un enlutado de origen" le ha tocado cumplir esa misión. En este orden de cosas, es bastante irónico que uno de los poemas más tristes de Geografía Infructuosa lleve el título de "Felicidad".
También se reitera aquí esa peculiar forma de panteísmo tan nerudiana, que podríamos llamar "ego-panteísmo". Ya no es Dios el que está presente en la naturaleza, sino el poeta mismo: "Me repartí en fragmentos / que entraban y salían de otras vidas, / formé parte del pan y la madera, del agua subterránea, del fuego mineral". Abrumado por su condición telúrica, teme que no lo acepten como prójimo del hombre común y corriente.
También se reitera aquí
esa peculiar forma de
panteísmo tan nerudiana,
que podríamos llamar
"ego-panteísmo".
Ya no es Dios el que
 está presente en
la naturaleza, sino el poeta.

Foto:Fundación Neruda
Un tema que Neruda había desarrollado en el poema "Unidad", de Residencia en la Tierra, reaparece ahora vinculado a la conciencia de la muerte. Es el problema de la identidad del ser dentro de la sucesión temporal, y el asombro de que los individuos conserven su unidad, a pesar de la fragmentación que les provoca la intermitencia de los días. Esto se observa, por ejemplo, en el poema que precisamente se llama "Sucesión": "Muerte a la identidad, dice la vida: / cada uno es el otro, y despedimos / un cuerpo para entrar en otro cuerpo". Un tema similar aparece en los poemas de Francisco de Quevedo que Neruda había presentado en 1935 con el nombre de Sonetos de la Muerte...
Como hemos dicho, Geografía Infructuosa fue iniciado en 1971, meses después del triunfo del socialista Salvador Allende. Neruda había participado activamente, primero en la campaña electoral y después en las concentraciones populares que celebraban al nuevo gobierno, y vio desde muy cerca esos "miles de ojos" a los que hace referencia. Uno habría esperado entonces que un libro suyo tan cercano a esas fechas se inclinara hacia la poesía de la multitud.
Pero el poeta propone y la vida dispone, porque Geografía Infructuosa conjuga de una manera imprevisible los dos aspectos que Neruda subrayaba a propósito de Residencia en la Tierra: "la soledad de un forastero" y "un mundo violento y extraño". Sólo que ahora el forastero es el "exiliado" en Francia, y lo violento y extraño no es el mundo que lo circunda, sino la enfermedad que ha invadido su cuerpo. Por eso, contradiciendo los planes de Neruda, el libro acaba siendo un diario de vida interior -sin multitud, sin luz, sin alegría-, cuyas páginas registran el infructuoso clamor de un solitario a quien la muerte acecha.

Arquivo Adriana, El Mercurio, Artes y Letras. Domingo 11 de julio de 2004


Nerudianas: Ode à colher

            Em 1954, Pablo Neruda publica Odas elementales, resultado de seu desejo, assim o explica em Confieso que he vivido, de reescrever muitas coisas já contadas, ditas e reditas. Foi um livro muito bem recebido pela crítica, mesmo daquela que, até então, lhe havia sido adversa. Nele revelou, como nos que se lhes seguiram, Nuevas odas elemementales (1956) e Tercer libro de las odas (1957), um novo rumo na sua poesia, um dos seus mais ricos ciclos poéticos. Com admirável claridade e alegria, busca mostrar a beleza das coisas simples, aceitando o dever que acredita ser o do poeta: cantar para todos e, com o seu canto, dar um sentido à vida.
            “Oda a la cuchara” (Ode à colher) pertence ao Tercer libro de las odas, cujo primeiro poema, “Odas de todo el mundo”, como a “Ode à crítica I” e “Ode à crítica II” (respetivamente de Odas elementales e de Nuevas odas elementales), é um dos manifestos desse lirismo que pretende doutrinar, com versos: o que é belo também é um ensinamento para os homens. Como o pregão de um mascate – Eu vendo odes, “De tudo / um pouco / tenho / para todos – Pablo Neruda as oferece: elas são de todas as cores e tamanhos, seráficas, selvagens, finas / enroladas / como arame ou de inclinação dolorida / cobertas / pelo / aroma / enterrado / dos lilás. Um universo em que se misturam as escuras alegrias infundadas, as coisas do coração partido, com a simplicidade do cotidiano, presente no tomate, no cimento, nos trens, na colher.
            A estrofe inicial da “Ode a la cuchara” remete a esse querer do Poeta em transmitir ensinamentos. Nos primeiros versos, define a colher como a concha, a mais antiga mão do homem, cuja forma, na madeira ou no metal de que é feita, deixa perceber, ainda, o molde / da palma / primitiva [...], oco nascido da palma de sua mão, ao qual o homem acrescenta um braço de madeira. Assim, espalhou-se por itinerários feitos de montanhas, rios, barcos e cidades, castelos e cozinhas onde o difícil – algo na aparência tão óbvio, mas que o Poeta não deixa por dizer – foi ela juntar-se com o prato do pobre e com sua boca.
A quinta estrofe é feita da voz do Poeta , não mais a defini-la, cada / vez / mais / perfeita, a lembrar que, pequenina, na mão da criança, lhe oferece o mais antigo / beijo da terra /[...], porém a assumir um coletivo indicado pelo verbo, na primeira pessoa do plural, que propõe o tempo de uma nova vida. Os verbos lutar e cantar, indicando as ações necessárias, num gerúndio a expressar continuidade, e o verbo será a expressar a certeza desse mundo sem fome que o Poeta vislumbra. E que imagina imenso com todos os pratos na mesa, um vapor oceânico de sopa e um total movimento de colheres. O alimento, um direito de todos os homens como a beleza e a alegria, representada pelas flores, acrescidas a essa mesa posta e farta. Flores humanizadas pelo adjetivo felizes que envolve também o alimento (a sopa fumegando) e aos que dele usufruem (compreendidos no total movimento de colheres). Significado luminoso e em acorde com o pensamento do Poeta ao almejar uma sociedade sem castas. E, em acorde com os primeiros percursos da colher ao abrigar a água e o sangue / selvagem / palpitação / de fogo e caçada e a herança silenciosa, / das primeiras águas que cantaram. Na sua voz, que deseja ensinar, se mistura a que procura o interlocutor (Sim, colher, diz um de seus versos) e a que exprime a sua esperança e a de outros na utopia de entrever o mundo sem fome. E iluminado pela beleza das flores felizes.

Cecilia Zokner in Literatura do Continente, O Estado do Paraná, Curitiba,  11 de julho de 2004


6 de junho de 2004

A emoção da manhã

Navegaciones y regresos foi publicado pela editora Losada de Buenos Aires em 1959. Na verdade, é o quarto livro das odes que Pablo Neruda começara a escrever em 1952 e que marcam o novo rumo de sua poesia: cantar as coisas simples para homens simples. Uma poesia didática, diz Emir Rodríguez Monegal (El viajero inmóvil, Buenos Aires, Losada, 1966), cujo fim é ensinar, mostrar, descrever. Nelas, Pablo Neruda canta o mundo que o rodeia e que, de alguma forma, o impressiona seja o ar, o fogo, o mar, o amor, a alegria, a claridade, os animais, as plantas, as coisas.
        “Oda a una mañana del Brasil”está entre aquelas que resultaram de uma vivência. Fruto das emoções de que foi impregnado diante de uma exuberante natureza tropical que, no poema de seis estrofes, se mostra nas cores e no movimento dos seres que a habitam. Nada mais prosaico do que o primeiro verso: Esta é uma manhã do Brasil. Na sua claridade, o Poeta se insere – Vivo dentro de um violento diamante, / toda a transparência / da terra / se materializou / sobre / minha testa  – como um ser especial com a marca na testa que o privilegia e num mundo mágico que é cercado pela floresta e iluminado. Mundo que mal esboça, nele inscrevendo, porém, a vida que emerge no crescimento das árvores, dos insetos, dos dias para se ampliar no universo imenso em que todas as cigarras que existem desde que existe o mundo, se unem para cantar. Apenas nas borboletas, se fixam os versos da terceira estrofe. Elas se movem no ar, nas flores, no nada: baile feito de cores que o Poeta, ingenuamente, enumera. Retorna ao ciclo da vida, na quarta estrofe, outra vez ao verde, a lembrar a mata e na referência a um amplo rio / que se despenca / em plena solidão. Novamente, o movimento dos répteis, dos mil seres que trocam de planta, de água, de pântano, de toca, das aves atravessando o ar aos quais se acrescentam, na quinta estrofe, os sons que são um grito, um canto, / um vôo, uma cascata.
            O meio-dia chega, a luz se espalha e tudo / fica imóvel. Já não é mais, somente, o Poeta a se saber dentro de um violento diamante, impressão que sente diante dessa vibrante e imensa luz, mas, no tempo que se detém e em que tudo, a terra, o céu, a água entra na sua caixa de diamante. Como um círculo no qual se encerra um universo, contido nos pequenos seres e nas suas vozes, na correnteza do rio, na luz.
            E a metáfora (cristal verde do mundo para significar floresta; voz de mel, de sal, de serraria, de violino delirante para o canto das cigarras). E as comparações (se estende / a luz como se tivesse /nascido em novo rio / que corresse e cantasse enchendo o universo, ampla é a claridade como uma nave / do céu, vitoriosa). São recursos que, assim como esse uso do adjetivo em combinações inusuais – violino delirante, meio-dia sossegado, aves abrasadoras, violento diamante – ou o seu acúmulo diante de um substantivo (voadoras, sucessivas e remotas para borboletas) se alternam com a simplicidade inscrita em outros versos, para transmitir a emoção da beleza. Para o Poeta ela é essencial e ao afirmá-la e ao descrevê-la a deseja para todos.
            Ao partir sempre de uma experiência concreta que deseja compartilhar, o ciclo das odes, com versos que expressam a crença na vida e a confiança no futuro, é um dos mais ricos e mais pessoais do Poeta. Pablo Neruda, para quem as formas e as cores e os perfumes e os sons que procura apreender são sempre plenos de significados, nessa “Oda a una mañana del Brasil”, se deixa, apenas, maravilhar.


Cecilia Zokner in Literatura do ContinenteO Estado do Paraná, Curitiba, 6 de junho de 2004

1 de junho de 2004

Pablo Neruda e o Capitão

No dia 18 de julho de 1943, estava sendo enterrada na cidade do México, Leocádia Felizardo Prestes para descansar de uma vida de amargurada e trabalhosa velhice. O filho preso, Olga, sua mulher, judia alemã, entregue, pelo governo brasileiro aos nazistas e levada, do Rio de Janeiro para Hamburgo, num cargueiro que – assim diz Jorge Amado em Vida de Luis Carlos Prestes: O Cavaleiro da Esperança –, “reproduzia as viagens dantescas dos navios negreiros”.  Logo ao chegar na Alemanha, presa em Barnimstrasse, deu à luz a uma menina que será criada sem alimento suficiente, sem condições de higiene, até pouco mais de um ano. Numa luta ferrenha, ajudada pelos pedidos, protestos, clamores, chegados de todas partes, a avó irá resgatá-la da prisão, mas a luta em prol da liberdade do filho não a deixa, ainda, calar-se. É impedida de voltar ao Brasil. No México, onde foi recebida, vive na incerteza e na angústia de saber que, no Brasil, estão martirizando o seu filho. Quando morre, erguem-se vozes, pedindo ao governo brasileiro alguns dias de liberdade para Luis Carlos Prestes – o general Lázaro Cárdenas, ex-presidente do México, garante com a própria pessoa, a sua volta para a prisão – assistir ao funeral.
Pablo Neruda que, no México, há três anos, representava, como cônsul, o seu país, expressa ao embaixador do Brasil, esse desejo que é de tantos e recebe como resposta – subterfúgio sempre tão usado para denegrir o inimigo político – que Luis Carlos Prestes estava detido por delitos comuns. O poeta polemiza, publicamente, com ele. Era o tempo da França invadida pelos alemães, era o tempo de Estalingrado e na sua intensa atividade criativa e política, já se mostrava evidente que, em Pablo Neruda, o poeta e o combatente eram inseparáveis. Getúlio Vargas se recusa em atender o pedido que lhe fora feito e Pablo Neruda, contrariando conselhos de amigos para que evitasse, como representante de seu governo, de se expor às críticas, comparece ao enterro de Leocádia Felizardo Prestes, levando flores e um poema.
Um longo poema que, no dia seguinte, é publicado na imprensa mexicana e fará parte, como “España en el corazón”, “Canto a Stalingrado”, “Nuevo canto de amor a Stalingrado” “Canto a los ríos de Alemania”, entre outros, de Tercera residencia (Buenos Aires, Losada, 1947), livro que reúne poemas pertencentes ao ciclo da Guerra da Espanha e da Segunda Guerra Mundial e, também, os desafiantes versos em defesa de Tina Modotti, e aqueles que enaltecem a Simon Bolívar e a Luiz Companys. A mãe morta, o filho preso, impedido, pela vontade expressa de um ditador, de estar presente no enterro, a inutilidade dessa prisão para a luta que se trava em prol de mudanças, que nada irá impedir de ocorrer, são inequívocos motivos para o poeta e seus claros, constantes e incansáveis compromissos políticos. E nos versos que, então, escreve, mais uma vez, procurando a justiça, a inspirada qualidade e a profunda dimensão lírica ultrapassam os limites de um simples registro de fatos deploráveis.
Em Confieso que he vivido, Pablo Neruda narra o episódio que, assim como a tantos, o indignou faz menção a esse poema “em honra de dona Leocádia, em lembrança de seu filho ausente e em execração ao tirano” e se refere à sobriedade dos primeiros versos e do tom violento que a eles se acresce, para designar o “déspota brasileiro”. No título, “Dura elegia”, significados possíveis do adjetivo – áspero, implacável, inexorável – e o gênero poético, “canto plangente”, sob o qual se abriga o poema.
Nove estrofes de um número desigual de versos, o compõem. Inicia-se com um vocativo, “Senhora” que, não apenas deve ter suscitado emoção entre os presentes da cerimônia fúnebre, ao ser lido, como guarda, ainda, grande potencial lírico que o cruel, injusto e arbitrário desencontro entre mãe e filho torna perene. E, imediatamente, lhe confere o poeta o invejável feito de ter tornado, pelo seu filho, a América bem maior. Dando voz a todos aqueles que desejam tê-la, assume, então, a voz coletiva que lamenta a ausência do filho, testemunha que muitos foram os que vieram para suprir o adeus negado e invoca os libertários da América, estejam eles vivos ou mortos, para ocupar esse lugar vazio. O uso de um nós, que elude o individualismo para compartilhar dessa herança de luta e infortúnio que foi, por ela, “mãe de pranto, de vingança, de flores”, “mãe de luto, de bronze, de vitórias”, deixada; para seguir-lhe o exemplo de “mãe de fogo e de cravos”, de “látegos” e de “espada”; para jurar que não haverá pausa – nem sono, nem sonho – até que seu filho volte. Para reafirmar, no possessivo repetido, serem todos donos do Continente e reiterar que o combate, que se trava, é insubmisso. E para louvar, engrandecido pelo caminho que percorre e pelo ideal que busca, a Luiz Carlos Prestes. Um caminho que obstáculos não cerceiam: “Não há cárcere para Prestes que esconda seu diamante”. Que vontades – a do “pequeno tirano”, “com suas pequenas asas de morcego frio”, com seu “turvo silêncio de rato” ou de “aranha implacável” – não vencem. E um ideal que o situa como “grande irmão”, ao lado dos “pais da América: “heróis coroados de fúria, de neve, sangue oceano, tempestade e pombas” e merecedor das enaltecedoras, encomiásticas qualidades que emergem em metáforas – é um “rio puro de águas colossais”, é uma “árvore de infinitas raízes” – e em símiles para dizer de seu coração a sobressair, “através das grades de ferro da prisão”, “como nas grandes minas do Brasil a esmeralda”, “como nos grandes rios do Brasil a correnteza”, “como brasa de centelha e fulgores”.
Se o poema é incisivo e, sem peias, chama de tirano o governante brasileiro e o compara a seres funestos e se, exasperado, lamenta, a mãe privada de seu filho, na vida e na morte – “Para tua sede negaram a água que criaste” –, esse arbítrio e essa dor se constituem incontestes razões para desalentos. Mas, revelando o amor à vida que nutriu sempre o poeta, como a confiança na felicidade possível, seus versos se iluminam na figura de Luis Carlos Prestes: um condutor de homens, “cheio de luz e de grandeza”, “claro capitão” que, embora ausente e “acorrentado”, conduz o combate. O mesmo combate do poeta e de todos aqueles que se abrigam nesse nós, expressão coletiva , sujeito dos verbos “mudaremos”, “romperemos”(o que machuca e faz sofrer) e dos verbos que prometem um mundo melhor (“inundaremos de luz a tenebrosa cárcere que há na terra”)  e, categoricamente,  a vitória. Ações visando um futuro que o tempo do verbo preconiza e que o advérbio, pleonástico “amanhã” torna certo e próximo. Como certa e próxima a presença do Capitão.
Em 1945, diante dele, que, depois de dez anos, saíra da prisão e das cento e trinta mil pessoas – dizem – que estavam no Estádio Municipal do Pacaembu, Pablo Neruda pede silêncio para as palavras do “Capitão do Povo”. E, Luiz Carlos Prestes, então, falou, recordará o poeta, em Confieso que he vivido, “com a serenidade de um general vitorioso”.


Cecilia Zokner in Jornal da Biblioteca, Ano I, Número 3, Curitiba, junho/agosto de 2004

23 de maio de 2004

Os vates na Academia

            No dia 4 de março de 1945, Pablo Neruda havia sido eleito senador da República pelas províncias de Tarapacá e Antofogasta, situadas na região das minas de cobre e salitre, a região mais dura do Chile, ele diz em Confieso que he vivido: Em poucos lugares do mundo a vida é tão dura e ao mesmo tempo tão desprovida de mimos para vivê-la. Percorrendo-a, como senador eleito por essa gente sem escola e sem sapatos, sua poesia foi-se alimentando dos padecimentos e das lutas, dos amores e dos cantares que presenciou e sentiu; enriquecida pelo que ele chamou de uma dura lição de estética e de busca através dos labirintos da palavra escrita o fizeram chegar a ser poeta de seu povo. Nesse ano, recebe o Prêmio Nacional de Literatura de seu país, ingressa no Partido Comunista Chileno, é convidado para visitar o Brasil e conhecer Luís Carlos Prestes recém posto em liberdade, após dez anos de cativeiro. No dia 15 de julho, diante das cem mil (ou, oitenta mil ou cento e trinta mil) pessoas que lotavam as arquibancadas e o gramado do Estádio Municipal do Pacaembu onde se realizava o comício dos comunistas, Pablo Neruda, na tribuna oficial, ao lhe ser dada a palavra, em vez de um discurso, lê, em espanhol, o poema escrito horas antes, em louvor a Luís Carlos Prestes. Emocionada, a multidão aplaudia a cada verso e tanto que, ao terminar, conforme relata Fernando Morais (Olga, São Paulo, Alfa-Ômega, 1985), como os aplausos não cessassem, voltou ao microfone para repetir o último verso: Silêncio: que o Brasil falará por sua boca.
            Alguns dias depois, no dia 30 de julho, diz Margarita Aguirre (Las vidas del Poeta, Santiago, Zig-Zag, 1967), no Rio de Janeiro, Pablo Neruda é recebido na Academia Brasileira de Letras. Na revista da Instituição (Ano 44, v.70, 1945) consta, no entanto, que a visita ocorreu no dia 26 de julho. Acolhido, na companhia de personalidades (cujos nomes não foram citados na ata que registrou essa sessão), com uma salva de palmas e algumas frases de saudação do Presidente da Casa que a seguir deu a palavra ao poeta Manuel Bandeira. Meu caro Senador Pablo Neruda, assim ele se dirige ao Poeta, pedindo permissão para tratá-lo de senador embora seja o detentor de um dos maiores potenciais poéticos existentes em todo o mundo, porque sabe que ele se envaidece mais do mandato, recebido dos mineiros chilenos, que do Prêmio Nacional de Literatura de seu país que acabara de receber. A seguir, menciona, entre os acadêmicos que fundaram a Instituição, aqueles que dedicaram a mocidade aos ideais que de Pablo Neruda são mais diletos: a justiça social, a liberdade, a república, a democracia. E entre os literatos, os que renovaram o ambiente espiritual brasileiro, imobilizado pelo exaurir romântico. Refere o ter sido a Academia considerada uma instituição reacionária e rebate a asserção com o argumento de que, se assim fosse, não estaria ele, nesse momento, expressando o seu fervor pela poesia livre, impura, romântica, expressionista, profética, originado da leitura de Veinte poemas de amor y una canción desesperada. Cita as palavras de Garcia Lorca (rapaz encantador, raro e potente poeta) quando apresenta Pablo Neruda na Universidade de Madrid, definindo-o como um poeta mais perto da morte do que da filosofia; mais perto da dor que da inteligência; mais perto do sangue do que da tinta. Palavras que Manuel Bandeira endossa, acrescentando que a vida posterior do Poeta iria confirmar tais asserções. E se refere às críticas a Residencia en la tierra (qualifica-o de grande livro) que foi tido como o solilóquio incoerente de um homem que se divorciou da vida que o rodeia e aquelas enunciadas por Amado Alonzo no longo estudo que dedicou à poesia de Pablo Neruda onde consta a insistência com que aparecem nos poemas as palavras ceniza e polvo. E, embora aceitando as pechas que lhe atribuem – céptico, pessimista – Manuel Bandeira pede perdão por repeti-las e afirma que, diante da Espanha em ruínas, a poesia de Pablo Neruda mudou, jurando defender até à morte o que assassinaram na Espanha o direito à felicidade, tornando-se a voz mundial da Poesia reivindicatória. Encerrando a saudação, Manuel Bandeira menciona Parral, o lugar de nascimento do Poeta, seus dois livros mais conhecidos e que todo o Brasil ouviu comovido a saudação do Pacaembu. Na primeira pessoa plural a englobar os acadêmicos, em nome dos quais se expressa, reconhece no Poeta o sangue, as dores, o justo anelo de felicidade dos mineiros de Tarapacá e Antofogasta e diz da honra de tê-lo como visitante e saúda, na pessoa do Poeta, a sua pátria.
            Grandiloqüente e plena de floreios foi a resposta de Pablo Neruda: adjetivos, metáforas, símiles, para recordar os nomes essenciais de Machado de Assis e Euclides da Cunha e dos  rumorosos poetas maiores: Castro Alves, Gonçalves Dias e Alvarez de Azevedo. Irá defini-los como aqueles que atacaram o monumento da tradição e a expressão de sua época e que se tornaram, por sua vez, tradição e monumento, porque não cultivaram um templo vazio mas o coração e o destino do homem e ao inventário da riqueza estética do Brasil, trouxeram  nos seus cantos caudalosos a voz indestrutível de seu povo. Refere-se à atenção que foi dada a sua obra, cujo valor, ele diz, talvez esteja apenas em continuar com o seu tom pessoal, a antiga profissão dos trovadores de amor e de guerra, de fé e esperança. E se atém aos temas de seu canto – as tristezas e as lutas da época em que vive, o louvor aos heróis e a defesa dos ideais. Sem renunciar, no entanto, à herança cultural – o pensamento e a beleza que herdamos – e lhe dar continuidade, entrelaçando o passado com o presente. E, agradecendo a acolhida, diz de seu sonho: uma só América na dignidade da liberdade e na unidade da cultura.
            Nesse por assim dizer diálogo entre os poetas, Manuel Bandeira, que se dirige a Pablo Neruda com o cerimonioso uso do pronome vós, faz menção à episódios recentes de sua vida, que, provavelmente, tenham circulado na imprensa. Porém, ao citar as palavras de Frederico Garcia Lorca numa cerimônia ocorrida há tantos anos passados e as de Amado Alonzo (Poesia y estilo de Pablo Neruda, 1940), demonstra um interesse maior pelo Poeta que será inegável ao expressar a sua admiração por Veinte poemas de amor y una canción desesperada (1924) e Residência en la tierra (1935). Faz referência ao poema “Entrada a la madera” e cita alguns versos de “Oda con un lamento”, de “Arte poética” e de “Madrid” de España en el corazón.
Dirigindo-se aos acadêmicos também a usar o respeitoso vós, é breve a homenagem de Pablo Neruda nessa rápida menção aos cinco autores brasileiros. Sobretudo, ele expressa e reiterando, a humildade – quero deixar uma palavra invalidada por meu menor merecimento, minha pequena história de escritor, a simplicidade de minha poesia – o imenso respeito com que abre os livros do passado.
Donos das palavras e de suas riquezas, os poetas, no recinto das normas e dos preceitos, se deixaram conduzir. E, ao falar com serena sobriedade ou exuberante entusiasmo, a voz de um e de outro resultou contida.


Cecilia Zokner in Literatura do Continente, O Estado do Paraná, Curitiba, 23 de maio de 2004

16 de maio de 2004

Leocádia

Para tua sede negaram a água que criaste.

Pablo Neruda.


            O poema “Dura elegia”, que lhe escreveu Pablo Neruda foi reproduzido em cartões postais que percorreram o Continente. Contrariando a afirmação dos embaixadores do Brasil que, submissos às ordens superiores, designavam seu filho como um delinquente comum, Leocádia Prestes viajou pela França, Suíça, Alemanha, Inglaterra, em busca de ajuda para livrá-lo da prisão arbitrária e das torturas a que foi condenado pela ditadura de Getúlio Vargas. E, para, igualmente, salvar Olga Benário, sua mulher e sua neta, ainda bebê, dos cárceres nazistas. Determinação e coragem surpreendentes numa época em que, diz Jorge Amado (Vida de Luís Carlos Prestes: O Cavaleiro da Esperança, São Paulo, Martins, 1947), à mulher, competia casar bem e se limitar ao lar, aos pensamentos do marido, sem se interessar pelo que se passava além das fronteiras de sua casa e em que ler um romance era um ato quase imoral. Mas, Leocádia, queria ler jornal e saber de política; queria ir para a Escola Normal, ser professora e ensinar crianças pobres a ler, enfrentando, nesse afã de participar, de ajudar, os preconceitos do mundo que a rodeava. Igualmente rebelde, o homem com que se casou, Antonio Pereira Prestes, que fugiu de casa aos treze anos para se alistar no exército quando sua mãe, acreditando na superioridade da nobreza, lhe desejava um futuro na corte. Tiveram um lírico noivado nas ruas de Porto Alegre e juntaram num casamento suas rebeldias adolescentes, diz Jorge Amado. Depois, uma vida difícil porque Antonio Pereira Prestes, abatido por uma longa enfermidade, morreu cedo, no Rio de Janeiro para onde se transladara com a família em busca de recursos médicos. Deixou um parco montepio de capitão e cinco filhos, dos quais o mais velho não tinha, ainda, dez anos. Leocádia foi obrigada a trabalhar para lhes prover o sustento, dando aulas de francês e de música para os poucos alunos do bairro pobre onde vivia; ou costurando, quando os alunos rareavam, vestidos de fazenda simples e feitios baratos. No seu tempo livre, cultivava o jardim e cuidava dos pássaros, sem permitir jamais que a vida difícil e trabalhosa a desviasse do sonho de fazer de seus filhos pessoas dignas para quem a honra estivesse acima de tudo.
            Quando a marcha revolucionária, sob as ordens de seu filho, se desfez, refugiaram-se, os que dela faziam parte, na Bolívia e, depois, na Argentina. E foi em Buenos Aires que, em contato com os líderes dos partidos políticos, ligados ao proletariado, Luís Carlos Prestes se inicia nos estudos marxistas o que o leva a se filiar ao Partido Comunista Brasileiro e a partir para URSS. Em novembro de 1931, chega a Moscou com a mãe e as quatro irmãs. Um de seus intuitos, aprender o que representavam essas teorias estudadas para a solução dos problemas de seu país que ele almejava fossem resolvidos. E, para isso, retorna ao Brasil, em 1935, incógnito, para preparar a revolução comunista. No Rio de Janeiro, protegido por um forte esquema de segurança e auxiliado por elementos preparados para tal, trabalha sem descanso para por em prática o levante que ordena seja no dia vinte e sete de novembro, às três horas da madrugada. Realmente, diz Fernando Morais em Olga (São Paulo, Alfa-Ômega, 1989) começou às três da madrugada e acabou à uma e meia da tarde, deixando os seus seguidores na ilegalidade e sujeitos `a uma terrível repressão policial que a traição do Secretário Geral do Partido, tornou sobremaneira eficiente. Luís Carlos Prestes e sua mulher grávida foram presos. 
            Tomando conhecimento, em Moscou, que o filho e sua mulher estavam nas mãos de Filinto Müller, Leocádia decidiu lutar para que fossem liberados. Com a filha Ligia, viajou para a Espanha onde, em comícios, organizados em todo o país, ela pedia, não somente pelo filho e sua mulher, mas por todos os presos políticos do Brasil. Depois, foi a peregrinação a Paris, Londres, Genebra e Munique. Ao saber que a mulher de seu filho havia sido entregue pelo governo brasileiro aos nazistas, viajou a Alemanha para vê-la o que não foi permitido. Tentou recorrer à mãe de Olga Benário, a única pessoa, segundo os nazistas, em condições de ajudá-la a provar a filiação de neta, o que significava lhe evitar a morte. Mas, como relata Fernando Morais, ela não permitiu a Leocádia terminar de dizer o que estava ocorrendo para exigir que se retirasse, para responder que nada tinha a ver com a comunista presa em Berlim. Restavam, então, os difíceis caminhos pelos meandros burocráticos instaurados pelos nazistas, de aquém e de além mar, a fim de obter os documentos que eram exigidos para ter a guarda da criança. Uma luta ferrenha que iria durar muito tempo e que não fosse pelo resgate da neta das prisões nazistas onde havia nascido, poderia ser considerado inglória, pois não iria conhecer sua nora Olga Benário, morta num campo de concentração e não mais iria rever o filho. Enquanto persistia na trabalhosa e sofrida busca para tirá-lo e a sua mulher e a sua neta das garras nazistas – viajando, pedindo, contratando advogado – Leocádia Prestes também se preocupava em fazer chegar à prisão, pacotes de alimento para a ajudar a amamentação da menina; em preparar um pequeno enxoval; em escrever cartas, que muitas vezes não eram entregues.
            No dia 21 de janeiro de 1938, no presídio de Barnimstrasse, em Berlim, segundo conta Fernando Morais, recebeu a neta Anita Leocádia das mãos da enfermeira-chefe da prisão e ainda com medo de imprevistos que lhes impedissem a saída da Alemanha, partiu, imediatamente para a estação de trem. Contudo, na França ou na Espanha, países em que havia feito a campanha pela liberação de Olga e de Anita Leocádia, sua neta, era visada pela Direita. Diante de uma Europa ameaçada pelo poder nazista em ascensão e a impossibilidade de voltar ao Brasil decide partir com a filha Ligia e com a neta para o México.
            E é no México, quando Olga Benário já havia sido executada no campo de concentração, e mal sabendo do filho, que irá morrer Leocádia Prestes, em julho de 1943. O Ministro da Guerra do México, ex-presidente do país, General Lázaro Cárdenas, pede ao Governo brasileiro, liberdade para que Luís Carlos Prestes assista ao funeral da mãe. Pablo Neruda, que era, então, cônsul no México, intercede oficialmente, junto à Embaixada brasileira. O pedido é negado e o Poeta, indignado como tantos, comparece ao enterro, levando flores e um poema, que será publicado na imprensa, no dia seguinte e incluído no livro Tercera Residencia (Buenos Aires, Losada, 1947).
Nele, é louvada por ser a mãe de Luís Carlos Prestes, e também pela coragem, perseverança e firmeza que a conduziram na luta pela vida, pela liberdade de seu filho.

E dirá Jorge Amado: velha mulher de cabelos encanecidos, de rosto marcado pela dor, magnífica figura de mulher, gloriosa na sua velhice, impressionante Leocádia.

          Cecilia Zokner in Literatura do Continente, O Estado do Paraná, Curitiba, 16 de maio de 2004