Se na “Oda al mes de agosto” (que
pertence ao Tercer libro de las odas, 1957) o Poeta se detém no frio do
inverno, no branco, no azul, na neve, numa única rosa, num espaço sem folhas / sem latidos, buscando a solidão absoluta (e ando / até mim, / por fim, na mais clara / claridade da terra), na “Oda a septiembre”, ele
deseja oferecer um sentido à vida, um ensinamento. Setembro é o mês que ele diz
ser das bandeiras, ser seco e ser molhado. Binômio que lhe dá motivo para um
desabrochar de imagens em que se alternam o sol e a chuva: mil flechas de chuva, Lança
de sol queimante. E, então, dá ao
mês uma presença humana, agraciada com uma relva
festiva para seus pés, com um arco íris para sua cabeça. Presença que,
não apenas se desenha mas é instada a dançar e a cantar. Cantar,
porém, com a voz dos pobres; dançar, porém, com os pés da pátria, nas
ruas com o povo. E o povo (que é o país e a primavera) se faz dono
da terceira e última estrofe da ode e está presente nos cachos de uva,
nos peixes fritos, no Chile dos vinhedos, do longo litoral marinho. E o povo
está sob esses signos que logo a seguir se alinham quando o Poeta ordena
ao mês de setembro coisas de mágica que assim se mostram a bandeira, a camisa,
um par de rosas, uma canção florida, uma guitarra a emergirem do prosaísmo da
arca, do subúrbio, da mina, do abandono, do peito para dizer de ideais e de lutas. Como guia, um inatingível – o sol , / o céu puro da primavera - que a pátria faz
vislumbrar de maneira bem real e cotidiana: algo de sonoro dentro de um bolso:
a esperança. Nos versos estão as cores (o verde, o vermelho, o amarelo, o
azul); estão os movimentos (a fumaça que sai do teto, o abrir das janelas);
estão as formas (bandeiras desgrenhadas, mina enlutada, pequena corola temerária).
E na metáfora, setembro é um vento, um
rapto, / uma nave de vinho. Divisão dos Arquivos
O Blog Pablo Neruda Brasil está apresentado em quatro seções obedecendo à data de publicação da matéria:
Arquivo Cecilia Zokner
Os breves textos sobre a poesia de Pablo Neruda foram publicados sob a rubrica Literatura do Continente no jornal O Estado do Paraná, Curitiba e fazem parte, juntamente com outros textos versando sobre Literatura Latino-americana, do Blog http:\\www.literaturadocontinente.blogspot.com.br. Os demais, em outras publicações.
Arquivo Adriana
Chilena de Concepción, amiga desde 1964, quando convivemos em Bordeaux, ao longo dos anos me enviou livros e recortes de jornal sobre Pablo Neruda. Talvez tais recortes sejam hoje, apenas curiosos. Talvez esclareçam algo sobre o Poeta ou abram caminhos para estudos sobre a sua obra o que poderá, eventualmente, se constituir uma razão para divulgá-los.
Arquivo Delson Biondo
Doutor em Literatura na Universidade Federal do Paraná. No ano do centenário de nascimento de Pablo Neruda, convidei Delson Biondo, meu ex-aluno do curso de Letras para trabalharmos sobre “Las vidas del Poeta, as memórias de Pablo Neruda”, constituídas de dez capítulos, publicados, em espanhol, na revista O Cruzeiro Internacional, no ano de 1962. Iniciamos o nosso trabalho com a sua tradução, visando divulgar, no Brasil, esse texto do Poeta que somente anos mais tarde iria fazer parte de seu livro de memórias Confieso que he vivido. Todavia, várias razões impediram que a tradução fosse publicada no Brasil, mas continuamos a trabalhar sobre “Las vidas de Poeta” no que se referia aos aspectos formais comparativamente a esses mesmos textos que passaram a fazer parte de Confieso que he vivido. Além desse estudo comparativo, pretendíamos nos aproximar, minuciosamente de cada um dos capítulos de “Las vidas del Poeta”. A comparação foi realizada e o estudo do primeiro capítulo concluído. Estávamos já, terminando a redação do estudo do segundo capítulo quando Delson Biondo veio a falecer em maio de 2014. Assim, as notas comparativas dos textos nerudianos e o estudo do segundo capítulo de “Las vidas del Poeta” não foram concluídos. Penso que a eles nada devo acrescentar.
Arquivo Aberto
Arquivo Aberto à recepção de trabalhos escritos em português ou espanhol que tratem da obra de Pablo Neruda, obedeçam às normas da ABNT e sejam acompanhados de um breve curriculum do autor. Os trabalhos poderão ser enviados para publicação neste Blog pelo e-mail pablonerudabrasil@gmail.com.
26 de setembro de 2004
Ode a setembro
Se na “Oda al mes de agosto” (que
pertence ao Tercer libro de las odas, 1957) o Poeta se detém no frio do
inverno, no branco, no azul, na neve, numa única rosa, num espaço sem folhas / sem latidos, buscando a solidão absoluta (e ando / até mim, / por fim, na mais clara / claridade da terra), na “Oda a septiembre”, ele
deseja oferecer um sentido à vida, um ensinamento. Setembro é o mês que ele diz
ser das bandeiras, ser seco e ser molhado. Binômio que lhe dá motivo para um
desabrochar de imagens em que se alternam o sol e a chuva: mil flechas de chuva, Lança
de sol queimante. E, então, dá ao
mês uma presença humana, agraciada com uma relva
festiva para seus pés, com um arco íris para sua cabeça. Presença que,
não apenas se desenha mas é instada a dançar e a cantar. Cantar,
porém, com a voz dos pobres; dançar, porém, com os pés da pátria, nas
ruas com o povo. E o povo (que é o país e a primavera) se faz dono
da terceira e última estrofe da ode e está presente nos cachos de uva,
nos peixes fritos, no Chile dos vinhedos, do longo litoral marinho. E o povo
está sob esses signos que logo a seguir se alinham quando o Poeta ordena
ao mês de setembro coisas de mágica que assim se mostram a bandeira, a camisa,
um par de rosas, uma canção florida, uma guitarra a emergirem do prosaísmo da
arca, do subúrbio, da mina, do abandono, do peito para dizer de ideais e de lutas. Como guia, um inatingível – o sol , / o céu puro da primavera - que a pátria faz
vislumbrar de maneira bem real e cotidiana: algo de sonoro dentro de um bolso:
a esperança. Nos versos estão as cores (o verde, o vermelho, o amarelo, o
azul); estão os movimentos (a fumaça que sai do teto, o abrir das janelas);
estão as formas (bandeiras desgrenhadas, mina enlutada, pequena corola temerária).
E na metáfora, setembro é um vento, um
rapto, / uma nave de vinho.
Nenhum comentário:
Postar um comentário