O poder das listas e das
estrelas.
Em 1954, a
Losada, de Buenos Aires, publica Las
Uvas y el Viento, livro que reúne os poemas escritos ou reunidos entre 24
de fevereiro de 1949 e 12 de agosto de 1952, quando Pablo Neruda viaja pela
Europa e pela Ásia. Mais do que a visão de um mundo que acredita renovado pelo
socialismo é um livro que, nos seus vinte e um cantos, vai desenhando, nas idas e vindas do Poeta, um
mapa lírico no qual cabem as paisagens e os homens, a reafirmação de certezas e
os momentos de emoção.
“La flor de seda” é o título do décimo segundo
canto e, como o segundo, dedicado à Ásia, nesses anos, agitada por
mudanças que o Poeta desejou registrar. O primeiro poema desse canto, “El lírio lejano” se inicia com a palavra
Coréia. Um país delineado num tempo de
transformações, de novas flores, de paz que se eleva; de um traje recente,
aquele usado nas fábricas, a substituir o de boneca ensanguentada e da vontade de modelar a própria estrela. No
segundo poema, “Los invasores” a estrofe de um só verso,
feito de uma única palavra, vinieron
(vieram) dramaticamente, anuncia aqueles que chegaram: os que arrasaram com a Nicarágua, os que
roubaram o Texas, os que humilharam
Valparaíso, os que oprimiram Porto Rico. Cinco vezes o verbo vieram é usado, insistindo no que, ao
longo da História, sempre se repetiu: o domínio de um povo sobre o outro.
Reportando-se ao passado e à outras geografias, o poeta lembra os agressores
que, agora, chegam, também à Coréia. Eles não são nomeados, mas se definem por
seus atos: queimam vivos mãe e filho na aldeia, incendeiam a escola, procuram o
último pastor nas montanhas, matam o
prisioneiro no seu leito, destroem vidas
e a vida. E pelo caos - fumaça, cinzas, sangue, morte - que então e somente com a sua presença
passa a existir. São conhecidos pelo que possuem – o napalm, os dólares, os
aviões assassinos, suas listas e suas
estrelas (clara alusão à tão conhecida bandeira), o que não deixa dúvida
sobre a identidade daqueles que realizam tais proezas. O terceiro poema, “Las
esperanzas”, testemunha esse momento que parece ser de fracasso e ao qual se
sucede uma forte razão – um homem, uma
nação, uma bandeira – para que retorne a luz e a semente volte a ser semeada. O Poeta, outra vez, nomeia a
Coréia, enaltecendo-a ao chamá-la de mãe de nossa época e mencionado-lhe o
sofrimento, advindo da morte de seus filhos e da destruição.O quarto poema, “Tu
sangre”, vai reafirmar as perdas –
filhos mortos, filhas mortas – e o sofrimento: Não há número nem há nome / para tantas dores. E exaltar, então, o
tesouro que a Coréia deu ao mundo: não apenas a própria liberdade, mas a liberdade inteira, / a de todos, a liberdade do homem. O que, no
último poema, “La paz que te debemos” será, outra vez, reafirmado e, outra vez,
enaltecido, como a convicção, tão
própria do Poeta, de que As lâmpadas / continuarão
acesas / e as sementes buscarão a terra.
Lírico,
seus versos remetem às cores e às flores, ao sacrifício dos heróis. Militante
ao sangue vertido e ao valor inigualável da conquista. Porque assim como
acredita que o vento irá conduzir as palavras do novo ideal, que é possível
elevar a nova estrela ao firmamento, o Poeta conserva a certeza de um florescer
das verdades que ele sempre distinguiu e
exaltou.
Neste
canto “La flor de seda”, menciona a sua época, estes anos duros e diz que a liberdade
pode dizer seu nome / e continuar a sua herança. Meio século já se passou e
hoje a dicotomia – mudados os nomes das vítimas, conservado o nome do agressor
– continua a vigir e tão pujante quanto nesses idos de 1950.
Cecilia
Zokner in Literatura do Continente, O Estado do Paraná,
Curitiba, 19 de setembro de 2004
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