Divisão dos Arquivos

O Blog Pablo Neruda Brasil está apresentado em quatro seções obedecendo à data de publicação da matéria:

Arquivo Cecilia Zokner

Os breves textos sobre a poesia de Pablo Neruda foram publicados sob a rubrica Literatura do Continente no jornal O Estado do Paraná, Curitiba e fazem parte, juntamente com outros textos versando sobre Literatura Latino-americana, do Blog http:\\www.literaturadocontinente.blogspot.com.br. Os demais, em outras publicações.

Arquivo Adriana

Chilena de Concepción, amiga desde 1964, quando convivemos em Bordeaux, ao longo dos anos me enviou livros e recortes de jornal sobre Pablo Neruda. Talvez tais recortes sejam hoje, apenas curiosos. Talvez esclareçam algo sobre o Poeta ou abram caminhos para estudos sobre a sua obra o que poderá, eventualmente, se constituir uma razão para divulgá-los.

Arquivo Delson Biondo

Doutor em Literatura na Universidade Federal do Paraná. No ano do centenário de nascimento de Pablo Neruda, convidei Delson Biondo, meu ex-aluno do curso de Letras para trabalharmos sobre “Las vidas del Poeta, as memórias de Pablo Neruda”, constituídas de dez capítulos, publicados, em espanhol, na revista O Cruzeiro Internacional, no ano de 1962. Iniciamos o nosso trabalho com a sua tradução, visando divulgar, no Brasil, esse texto do Poeta que somente anos mais tarde iria fazer parte de seu livro de memórias Confieso que he vivido. Todavia, várias razões impediram que a tradução fosse publicada no Brasil, mas continuamos a trabalhar sobre “Las vidas de Poeta” no que se referia aos aspectos formais comparativamente a esses mesmos textos que passaram a fazer parte de Confieso que he vivido. Além desse estudo comparativo, pretendíamos nos aproximar, minuciosamente de cada um dos capítulos de “Las vidas del Poeta”. A comparação foi realizada e o estudo do primeiro capítulo concluído. Estávamos já, terminando a redação do estudo do segundo capítulo quando Delson Biondo veio a falecer em maio de 2014. Assim, as notas comparativas dos textos nerudianos e o estudo do segundo capítulo de “Las vidas del Poeta” não foram concluídos. Penso que a eles nada devo acrescentar.

Arquivo Aberto

Arquivo Aberto à recepção de trabalhos escritos em português ou espanhol que tratem da obra de Pablo Neruda, obedeçam às normas da ABNT e sejam acompanhados de um breve curriculum do autor. Os trabalhos poderão ser enviados para publicação neste Blog pelo e-mail pablonerudabrasil@gmail.com.

30 de junho de 2002

Os clandestinos. II Canto General

           O mundo dos negócios explica, hoje, que a produção de um filme possa ter dois ou três países como financiadores e que a edição de um livro possa ocorrer, simultaneamente, em dois, três ou mais países numa política editorial que, poucas vezes, leva em conta a qualidade e sim, antes de mais nada, o lucro.
No entanto, foi em 1950 que se deu, no dizer de Emir Rodriguez Monegal (El viajero inmóvil, Buenos Aires, Losada, 1966) um lançamento editorial latino-americano de tal importância como poucos livros o tiveram: no dia 3 de abril, resultado de uma subscrição, assinada pelas personalidades mais destacadas do mundo hispânico, na cidade do México, veio à luz o Canto General numa edição ilustrada por Diego Rivera e David Alfaro Siqueiros. Logo aparece outra, em fac-símile que, posta a venda, foi um êxito notável. Três anos antes, em abril de 1947, haviam sido realizadas no Chile eleições municipais cujos resultados mostraram uma expressiva presença do Partido Comunista, partido que dera apoio a González Videla para elegê-lo Presidente. Ele, então, havia dito: Não haverá força humana nem divina que possa me separar do Partido Comunista. Mas, com o resultado, que não previra, a contrariarem seus novos acordos, não podia aceitar, diz Volodia Teitelboim no seu livro Neruda (Santiago, Editorial Sudamericana Chilena, 1996) que os comunistas viessem a se constituir, através das urnas, um grande partido. Na verdade, é sabido que já havia negociado com os norte-americanos do presidente Harry Truman os destinos dos comunistas. Logo, passou a perseguir Pablo Neruda que o ajudara na campanha, como Chefe do Comitê Nacional de Propaganda, quando então, testemunhara as suas promessas de reformas sociais. Dominado pelo humilhante sentimento de ter sido atraiçoado, o Poeta escreve “Carta íntima para milhões de homens”, publicado pelo jornal El Nacional de Caracas.
            González Videla, com o argumento de que a publicação dessa carta no estrangeiro é um abuso de quem usufrui da imunidade parlamentar, pede a destituição de Pablo Neruda de seu cargo de Senador da República. Apesar da licença para se ausentar do país que lhe concede Arturo Alessandri, Presidente do Senado, no dia 3 de fevereiro ele é destituído de suas funções o que o torna um cidadão comum, passível de ser preso. Efetivamente, dois dias depois, o Tribunal de Justiça ordena a sua detenção. A partir desse momento ele deve se esconder para evitar a prisão e passa a viver na clandestinidade, ajudado por amigos e por correligionários e, às vezes, por pessoas que nem conhece. A síntese desse peregrinar é dada por Volodia Teitelboim: uma lei da clandestinidade prescreve que não se pode permanecer muito tempo numa casa. Teve que mudar. Foi de casa em casa, todas humildes, nelas todos guardavam o segredo. [..]. Ele entrava de repente sem conhecer ninguém e era recebido como irmão. E de esconderijo em esconderijo, Pablo Neruda vai escrevendo os poemas do Canto General. Mais tarde, ele irá contar: foi escrito na sua maior parte em dias de perseguição e dificuldades. Eu não estava na prisão mas era difícil escrever sem ter comunicação com ninguém. Dezenove dias depois de tê-lo terminado, cruza, a cavalo, a Cordilheira dos Antes, rumo à fronteira da Argentina, levando seu manuscrito sob um rótulo falso. Atrás de si, expondo-se às perseguições policiais, ficaram aqueles que deveriam realizar a tarefa de publicar o Canto General, no Chile. Eram tempos em que a polícia estava à caça da propaganda clandestina. Tinha a lista de todas as imprensas e podia descobrir a origem de uma publicação através da tipografia usada, relata Volodia Teitelboim. Mas não foi essa uma razão suficiente para impedir a edição, apresentada como se tivesse sido feita no México, de cinco mil exemplares.
            Um deles, chegará às mãos de Pablo Neruda, em Paris, onde chegara fugitivo, também a viver escondido. Ao lhe ser concedida a permissão para uma permanência legal no país, ele pôde se apresentar no Congresso Mundial de Partidários da Paz que se realizava com a presença dos mais prestigiados intelectuais da época. No dia 25 de abril de 1949, quando do seu encerramento, lê, dessa edição chilena clandestina, “Um canto para Bolívar”.
            Para o poeta e para os poemas do Canto General acabavam-se os dias de clandestinidade.


Cecilia Zokner in Literatura do ContinenteO Estado do Paraná, Curitiba, 30 de junho de 2002

23 de junho de 2002

Os clandestinos. 1 Los versos del capitán

Pablo Neruda como todo poeta lírico gosta de retratar-se em sua poesia, retocando apenas alguns perfis e embaralhando, ironicamente, muitos dados objetivos. Mas, a dupla ação de indiscretos admiradores e curiosíssimos inimigos o forçaram a confessar-se ou  a mascarar-se mais de uma vez, provocando, assim, novos problemas a todas as análises críticas de sua poesia e sua vida. Emir Rodriguez Monegal.

Disse uma vez Mejia Baca, um editor peruano que amava o seu ofício, ser lamentável que num tempo em que os homens chegaram à Lua, o itinerário de um livro, saído de uma cidade do Pacífico, levasse meses para chegar à outra, situado no Atlântico. Um caminho tão intricado como o do livro de qualquer país do Continente para chegar a outro, pois, em relação ao comércio livreiro, as fronteiras se revelam muito difíceis: se não existem informações quanto ao que foi editado, tampouco, na velha tradição do subdesenvolvimento de deixar a correspondência sem resposta, raramente os pedidos são atendidos. Situação que certamente se agrava, quando se trata do Brasil. Ao se submeter às apreciações críticas do Hemisfério Norte que lhe orientam as traduções, são bem poucos os autores latino-americanos publicados e a Literatura dos países da América Latina continua sendo desconhecida do leitor brasileiro. Mesmo de um Prêmio Nobel, como Pablo Neruda, poucos foram os títulos e poucas as obras sobre ele ou sobre a sua poesia que atraíram a atenção das editoras.
            Volodia Teitelboim que, em 1984, publica, segundo a sua editora, a Sudamericana Chilena, a mais completa, amena e compenetrada biografia de Pablo Neruda, relaciona uma infinidade de estudiosos da obra do poeta, cujos trabalhos não chegaram ao Brasil. Assim, estudar Pablo Neruda sem condições de conhecer o que sobre ele e sobre a sua obra já foi dito, pode levar à interpretações equivocadas ou a desnecessárias repetições. Um risco inevitável que, se enfrentado, se justificará como tentativa de povoar o vazio que envolve a sua figura e a sua obra no Brasil. Figura e obra que, muito mais que em outros poetas, não permite sejam dissociadas, porque seus poemas têm ou uma razão ou um momento ou uma história, geralmente, muito precisos que, embora, não possibilitem tudo esclarecer, conduzem a uma aproximação maior dos seus sentidos poéticos. Longo, provocador e instigante o caminho percorrido por Los versos del capitán, no dizer de seu autor, entre os seus livros, um dos mais controvertidos. Foi publicado, pela primeira vez, no ano de 1952, em Nápoles, numa edição clandestina, em belo papel e impresso em tipos Bodoni e com ilustrações do pintor Paolo Ricci, em cinqüenta exemplares que se constituem, hoje, uma raridade bibliográfica. No ano seguinte, sai pela Losada de Buenos Aires que, ainda o publicou, anônimo, outras vezes. E, somente, em 1963 é que o livro foi reconhecido, como seu, por Pablo Neruda que, todavia, no Prólogo, então acrescentado, não revelou a causa que o levara a publicá-lo anteriormente sem o seu nome. Causa esta que apenas será conhecida quando suas memórias, Confieso que he vivido, vem à luz, em 1974: A verdade é que não quis, durante muito tempo que esses poemas ferissem a Delia, de quem me separava. Delia del Carril, passageira suavíssima, fio de aço e mel que prendeu minhas mãos nos anos sonoros, foi para mim durante dezoito anos uma exemplar companheira. Este livro, de paixão brusca e ardente, ia ser como uma pedra lançada sobre a sua terna estrutura. Foram essas e não outras as razões profundas, pessoais, respeitáveis do meu anonimato. Bem mais tarde, alguns detalhes serão contados pelos amigos, cuja convivência com o poeta permitiu fossem conhecidos. Mencionado, brevemente, por Volodia Teitelboim, o seu temor e dos que rodeavam Pablo Neruda, diante dos pretensiosos descobridores eruditos desentranhadores de estilo assaz indiscretos que proclamavam a viva voz diante da mulher por quem o livro tinha sido publicado sem o nome do pai que ele era o autor desse livro que anunciava o amor por outra mulher. E lembra um entardecer em Goiânia, perto do lugar onde será erguida Brasília, em que o poeta discute com o seu interlocutor que se vangloria de saber que era ele,Neruda, e não outro, o autor do livro anônimo, enquanto Delia del Carril, embora dissimulando um ar ausente, era a imagem da mulher sozinha e prostrada. Pablo Neruda não queria abandoná-la ao se ligar a Matilde Urrutia e durante sete anos viveu, então, uma vida dupla, compartilhando o teto conjugal com Delia e o leito com Matilde. Somente a vingança de uma empregada, que atendia as duas senhoras em Isla Negra, onde o poeta levava ora uma ora outra,  provocou o desenlace: a separação de Delia del Carril, em 1955. Pablo Neruda passou a viver, às claras, com Matilde Urrutia, a musa dessa escrita sem censura em que, diz Volodia Teitelboim, o poeta escondia o rosto para, ingenuamente, deixar a descoberto a alma.
            Uma alma tão cheia de veemência que, em cada um dos poemas de Los versos del capitán se expandia, fazendo emergir a identidade que o poeta queria esconder, tanto quanto desejava dizer ao mundo do amor que sentia por Matilde Urrutia.


Cecilia Zokner in Literatura do ContinenteO Estado do Paraná, Curitiba, 23 de junho de 2002

26 de maio de 2002

Manuela Sáez. I

Manuela, brasa e água...
Dos versos de Pablo Neruda
           
No seu livro Neruda, publicado na Espanha em 1984 e reeditado na Argentina, Cuba e Chile, Volodia Teitelboim, além das detalhadas referências às circunstâncias biográficas do poeta com que, na condição de íntimo amigo, conviveu durante quarenta anos, comenta, muitas vezes, os seus poemas. Ou revelando-lhe os motivos, o momento de sua gênese ou em análises que demonstram o estudioso da obra nerudiana nos abundantes artigos e ensaios que lhe dedicou.
           No capítulo 132, “Uma heroína esquecida”, se refere à viagem de Pablo Neruda a bordo do Itália, em janeiro de 1958, mencionando breves linhas de uma carta que o poeta, nessa ocasião, lhe escreveu e em que diz estar a escrever conferências e um longo poema sobre Manuelita Sáez, a amada de Simão Bolívar. No porto de Paita, pequeno povoado da costa peruana, breve escala do navio, ele desembarca e procura pelo seu túmulo. Ninguém sabe dela, ou do lugar em que repousa. Essa busca vã e o querer redimi-la do olvido são expresso em “A insepulta de Paita”, parte de seu livro Cantos cerimoniales, publicado em 1961, pela Losada de Buenos Aires.
           O poema é feito de um Prólogo e de vinte e duas estrofes de estruturas diversas quanto ao número de versos (a décima, por exemplo tem apenas três; a vigésima segunda, cinqüenta e quatro) e quanto à forma (ora narrativo, ora descritivo, ora confessional). O seu começo é como se fora uma narrativa da viagem que se inicia em Valparaíso e se faz num Pacífico, duro caminho de punhais. Na segunda estrofe, presente esse espaço, Paita, que abriga a mulher morta e o desejo do poeta de tocar a terra que a esconde. Pelas suas palavras, desenha-se o povoado nas balaustradas velhas, nas sacadas azuis; eleva-se o seu cheiro de perfume audaz; ostentam-se as frutas, vislumbram-se as índias sentadas sob o zumbir das moscas e o dia nublado. Nem o menino, nem o homem, nem o ancião interrogados, respondem onde havia falecido Manuelita, onde tinha sido a sua casa, onde finalmente, repousava.E, nem os montes, o manancial, o rio e o mar, também interrogados, nada lhe respondem. Mas, o poeta, se não encontra o lugar em que Manuelita Sáez se abriga (tu que não tens um túmulo), a faz renascer num desenho que lhe traça o corpo de delgados pés espanhóis, de pequena mão morena, de cadeiras claras de cântaro de cabelos negros e seios de magnólia. E lhe retrata a alma: libertadora enamorada, suprema flor empunhada pela ternura e a dureza, guerrilheira, libertadora, contrabandista pura, idolatrada desrespeitosa. E lhe define o destino de sepultada em plena vida, insepulta bravia, corola destroçada pela areia e pelo vento, forma calada pelo pó de Paita. Paita que ele torna a descrever, incrustada na costa, com seus cais podres, suas escadas quebradas, seus fardos de algodão, suas casas abandonadas, seus paredões rotos onde alguma bouganville/ lança na luz o jato/ de seu sangue vermelho. Paita, povoada de silêncio, De todo o silêncio do mundo e escolhida por Manuela Sáez como lugar de seu exílio. E o poeta não compreende e quer saber e pergunta e torna a perguntar o porquê da escolha dessa terra miserável, dessa luz desamparada, dessa sombra sem estrelas, desse lugar onde morrer. Tampouco obtém respostas, tampouco encontra a lápide de Manuelita Sáez: Manuelita insepulta, /desfeita nas atrozes, duras /soledades.
            E seu barco se afasta de Paita que ficou perdida nas suas areias, para o esquecimento.
            Nas vinte e duas estrofes que lhes dedica, os versos que falam do mar navegado, de paisagens desoladoras, das frutas do mercado de Paita, de exílios e de escolhas de amores perdidos, de imagens fugazes. Falam do anseio do poeta em decifrar esse enigma em que se transformou Manuela Sáez nos dias de exílio e que a escondem do mundo. Por isso, desembarca em Paita e lhe persegue a figura ausente. A perplexidade diante do vazio, a evocação apaixonada da figura feminina e o anseio de que seus ossos tenham nome se entrelaçam no sentir do poeta e fazem de sua romaria, nesse povoado perdido uma cerimônia que o seu canto imortalizou.

Cecilia Zokner in Literatura do ContinenteO Estado do Paraná, Curitiba, 26 de maio de 2002

27 de janeiro de 2002

As invenções

            No prólogo ao livro Nerudario (Santiago, Planeta Chilena, 1999) de sua autoria, José Miguel Varas resolve suas dúvidas – como escrever sobre momentos da vida de Pablo Neruda que presenciou, sem correr o risco de ser tido como um aproveitador das glórias do poeta? –, citando as palavras do escritor Carlos Martinez Moreno: Porque Neruda derramava incontidamente sua amizade como seus versos e ter dela desfrutado não significa de modo algum tê-la merecido. Assim, nos diferentes capítulos de Nerudario, a lembraros ditos de Pablo Neruda, suas tiradas trocistas, as brincadeiras com que se divertia, a paixão pelos livros e por incunábulos, manuscritos, caracóis, antiguidades, freqüentemente, aparecem os testemunhos que o mostram imensamente solidário para com os amigos e de uma ingênua prodigalidade ao gastar em “contas de hotel e dinheiro de bolso de numerosos chilenos e chilenas pouco solventes que vagavam pela Europa – poetas, estudantes, pintores, cineastas, músicos ou qualquer outra coisa – procurando a arte, o amor, a revolução. Nesses testemunhos, também, as emoções que desabrocham diante de um presente recebido ou se dissolvem no desalento de um esperado encontro com amigos que não se concretiza. Delineia-se, então, um perfil instigante, por vezes comovedor e do qual não estão ausentes  algumas joviais travessuras que o tornam  inexpugnável às incursões crítico-interpretativas nem sempre muito conseqüentes. Daí, o valor de certas informações. Por exemplo, a que dá a chave de uma estrofe nerudiana, a penúltima do poema “Botânica”, da sétima parte do Canto General.  José Miguel Varas elucida o mistério que já havia tentado a muitos estudiosos diante de seu sentido simplesmente circunstancial e a confundir, no seu hermetismo divertido, os exegetas e os críticos de seus versos. Conhecedores de poesia e de botânica, diz José Miguel Varas, muitos se aventuraram, amplamente, buscando achar o seu significado obscuro no meio de um poema sem segredos, indagando-se qual seria a relação entre o paico, espécie vegetal, cuja infusão é aconselhada para a dor de estômago, com lâmpadas, desamparo, noite e mar?  Uma vez que o Poeta não se referia à planta aromática que nasce nos campos do Chile, mas a um de seus amigos, cujo apelido era El Paico, preso numa pequena ilha, durante um passeio feito em tarde tormentosa e que se havia posto a fazer sinais, com um velho farol, para ser resgatado, qualquer conclusão a que chegassem os estudiosos estaria longe do que, na verdade, quis dizer. Certamente, uma brincadeira do Poeta, transparente, apenas, para uns poucos iniciados o que o diverte muito, pois como relata, também José Miguel Varas, ele nunca esteve disposto a esclarecer o sentido de seus versos. Quando Margarita Aguirre, autora de Genio y figura de Pablo Neruda, publicado em 1964, pela Editorial Universitária de Buenos Aires, obra considerada, por alguns, como a melhor e mais vibrante biografia do Poeta, lhe perguntava sobre a gênese de seus poemas ou sobre o significado de certos versos misteriosos ou herméticos, Pablo Neruda jamais lhe esclarecia o que quer que fosse, dizendo que os críticos, como Amado Alonzo, viam na sua poesia coisas que ele ignorava e que alguns de seus achados o deixavam perplexo. E, diante das investidas desesperadas da sua biógrafa, recomendava: Invente, comadre, invente.
            São histórias que remetem, exemplarmente, às teorias e métodos aplicáveis às aproximações de textos literários. Quase sempre, tais teorias e tais métodos se originam da produção oriunda dos países irradiadores de cultura o que lhes confere irrefutáveis qualidades; e, também, quase sempre são usadas em obras pertencentes a um hemisfério que apenas, de longe, se assemelha aos universos nos quais procura se mirar. Trilhas que levam às explicações, elucubrações e interpretações que, embora respaldadas por impecáveis embasamentos teóricos, podem resultar fantasiosas ou vãs, como o revelam as palavras de José Miguel Varas sobre o poeta e seu relacionamento com o mundo a descobrir algo de seus segredos e de seu poetar.
Cecilia Zokner in Literatura do ContinenteO Estado do Paraná, Curitiba, 27 de janeiro de 2002

30 de setembro de 2001

Fim de festa


                                                   Meu dever é viver, morrer, viver.
                                                                                                          Pablo Neruda

            Em 1969, dois anos antes de receber o Prêmio Nobel, Pablo Neruda publicou, pela Losada de Buenos Aires, Fin de mundo. Além do que o poeta intitula “Prólogo”, constituído de um poema, a coletânea é feita de onze partes. São poemas que falam da solidão, da incompreensão dos homens, suas traições e mentiras, da incomunicabilidade que os desune, de seus desterros e sofrimentos e morte. Da violência da natureza – o mar a invadir a terra, a terra a explodir na cratera de um vulcão – e da água, do vento, da terra, dos animais. Do amor e da morte, de suas relações com o mundo e com seus poemas. Entre eles, os que justificam o título Fim de mundo,
exprimindo as inquietudes diante de um tempo que ele sente carregado de negros presságios, em acorde com o  já acontecido no século XX que  chama o século da agonia.  Nos primeiros versos, indaga sobre o momento em que vive, se nele haverá uma escolha entre a revolução e a mentira patriarcal. Mas, logo lhe vem a certeza da agonia que se instaura na busca da verdade e da paz; do medo em falar o que é passível de comprometer; das vítimas dos calabouços e dos fornos crematórios; da ânsia de fugir da Bomba (homens, insetos queimados ) e da vergonha de ser homem igual ao desintegrador e ao calcinado. E, na convicção de que os países continuam fabricando ameaças e guardando-as no armazém da morte, novamente, uma pergunta: E outra vez, outra vez / Até quando outra vez? Porque Pablo Neruda não esquece a Primavera de Praga (a neve salpicada pelas feridas dos mortos), a Guerra da Espanha (os punhais deixaram um milhão de ausentes), a Segunda Guerra Mundial (um milhão entrava por um forno e se convertia em cinza), as Guerras coloniais (com as colônias rebentando / como negras frutas podres / na escravidão do suor), a Guerra do Viet Nam (a quebrar todos os cristais, / a queimar crianças com napalm), a morte do Che (O comandante terminou / assassinado num barranco) e de Bem Bella, Bem Barka, Lumumba, condenados por verdugos invisíveis.

            Tampouco esquece as vítimas anônimas que desapareceram deixando no mundo um sapato queimado, um brinquedo, um chapéu caído. E no tristíssimo  século, o século dos desterrados, o século pardo ,  o século que faz cem anos / a picotar olhos feridos / com suas ferramentas de ferro / e suas garras condecoradas, ainda que, se permitindo dizer do amor, da amizade, da sua meninice, da ternura para com as coisas, da feitura de seus versos, lhe seja imprescindível o testemunho: Eu contei as mãos cortadas / e as montanhas de cinza / e os soluços separados / e os óculos sem olhos / e os cabelos sem cabeça.  E, assim, não cala diante desse mundo indesejável e virulento.

            Por vezes, dele foge o poeta, a se refugiar em sonhos e fantasias: corre atrás de um relâmpago, deseja ser em oura vida uma gota vermelha do mar ou deseja viver, entre as pedras, ao lado de uma lagartixa. Breves e efêmeras tréguas pois, ao buscar-se a si mesmo acaba, sempre, de volta ao mundo dos homens.

Não nos façamos ilusões
nos aconselha o calendário,
tudo continuará como antes
a terra não tem remédio:
em outras regiões celestes
há que procurar alojamento.


 Cecilia Zokner in Literatura do Continente, O Estado do Paraná, Curitiba, 30 de setembro de 2001

23 de setembro de 2001

O enterro do poeta

            Isabel Allende o chama, simplesmente, de Poeta mas, ao mencionar-lhe a casa, perto do mar, e a paixão pelas coleções e os versos que não concluiu é como dizer-lhe o nome neste  primeiro romance que publicou, La casa de los espíritus (1982).   A narrativa que abarca os princípios do século XX e se estende até os primeiros tempos da ditadura chilena, instaurada em 1973, nos dois últimos capítulos do livro, “O terror” e “A hora da verdade”, relata o destino dos personagens no dia desse primaveril mês de setembro em que foi dado o golpe militar e nos longos dias que se lhe seguiram. E fazem constar o que, afinal, não foi um segredo para o mundo, os atos arbitrários, as prisões, as brutalidades, as torturas, as traições, os ridículos, as perdas, as covardias, a especulação, a euforia inconsciente. Também, a agonia do Poeta e a sua falta de vontade em continuar a viver. Morreu no dia 23 de setembro e na sua casa de Santiago,  meio em ruínas pela ação dos vizinhos, como diziam os militares e pela ação dos militares, como diziam os vizinhos,  foi velado por uns poucos pois seus amigos estavam prófugos ou exilados ou mortos. E foi um pequeno cortejo que acompanhou o caixão, simples, de madeira, coberto de flores, caminhando lentamente, entre as duas filas de soldados com suas metralhadoras. Em  dado momento do percurso, uma voz gritou o nome do Poeta e, numa só voz, todas as vozes responderam: Presente!Agora e sempre. E se elevaram cantos e consignas proibidas, enfrentado as armas que tremiam nas mãos dos soldados. Ao passar o cortejo fúnebre diante de uma construção, repetindo a homenagem que muitos anos antes, lhe haviam prestado os mineiros de Lota,  descobrindo-se ao ouvir, num comício, o seu nome e o da poesia que iria declamar, os operários abandonaram as ferramentas e, tirando os capacetes, formaram uma fila cabisbaixa. E seus versos, falando de justiça e de liberdade, foram gritados pelos que o acompanhavam até a última morada: um túmulo emprestado, diz a narradora.
            Logo, a ficção retoma o seu curso, enredada no tumultuoso acontecer de um cotidiano sem leis onde se inscrevem  os atos abusivos, os saques, as sevícias, os desaparecimentos, as mortes.  Como se, verdadeiramente, fossem invenções literárias, frutos de fantasia desenfreada a narrativa de  suplícios,  e  a   descoberta de facetas humanas até então insuspeitas, reveladas, uma e outra, na impunidade reinante  e nos benefícios auferidos na era que estava a se impor. Primeiro, o papel que aceitaram muitos, para tornar possível a sabotagem que, programada pelos que haviam sido substituídos no Poder, pretendia a queda do presidente eleito. Donos dos meios de comunicação e de quase ilimitados recursos econômicos e usufruindo da ajuda dos gringos, impediram o abastecimento do país, originando insustentáveis privações. Depois, a compreensão de que não seria  a falta  de um frango na mesa razão para deter a sedimentação do marxismo no país e a conseqüente aceitação de que o único a fazer seria um golpe militar. Quando ele foi dado, como que um toque de mágica transformou  as pessoas. Alba, uma das personagens femininas do romance, se pergunta de onde tinham saído tantos fascistas da noite para o dia porque na longa trajetória democrática de seu país nunca tinham sido notados [..]. E, para eles, como para os convertidos de última  hora,  foi fácil, bater  nos prisioneiros, massacrá-los até o impossível para, então, assassiná-los nos descampados, atirados no chão porque já estavam sem forças para ficar de pé. Ilustrando o procedimento usual em relação aos suspeitos, a prisão de Alba e as sevícias que sofreu. Indivíduos sem uniforme, invadiram a casa, durante a noite,  revolveram tudo ,quebraram, roubaram, atearam fogo sem que o barulho e a fumaça  tivessem alertado um único vizinho.
Sem dúvida, um relato para testemunhar. Como,  o das  breves linhas que registram  os últimos momentos da presença do Poeta sobre a terra.  Elas eludem o seu nome nesse abrigar-se em recursos narrativos como a dizer que só a ficção é passível de dar conta do inverossímil velório e do entrelaçar do medo e da coragem que foi o enterro de Pablo Neruda.
 
Cecilia Zokner in Literatura do Continente, O Estado do Paraná, Curitiba, 23 de setembro de 2001

1 de julho de 2001

Venho da terra

            É sabido que ao morrer, Pablo Neruda deixou oito livros inéditos de poesia. Mal dois meses se tinham passado desse aziago mês de setembro de 1973, para os chilenos, a Losada, de Buenos Aires, publica El mar y las campanas que, em menos de um ano terá sua edição esgotada. Fazem parte dele, quarenta e nove poemas, muitos dos quais o poeta nem teve tempo de lhes dar um título. Para nominá-los, a editora optou por usar o primeiro verso, ou parte dele, entre colchetes. É o caso de “Yo me llamaba Reyes...” em que Pablo Neruda começa lembrando seu verdadeiro sobrenome, o recebido do pai e abandonado, em 1920, pelo pseudônimo que adotou. Tinha, dezesseis anos e além de seus versos criou, também, como diz Emir Rodriguez Monegal, não somente poesia, mas o próprio poeta, ao perceber-se um homem convicto da vocação que lhe foi outorgada e à qual se submete como é preciso se submeter aos fados: a cumplir con mi tierra y con los mios, como escreverá, mais tarde, em Navegaciones y regresos. Fados que explicarão, nos versos de “Yo me llamaba Reyes...”, um nascimento em meio à pobreza e à derrota: Yo fui depositado / en la hojarasca: / se hundió el recién nacido / en la derrota y en el nacimiento / de selvas que caían / y casas pobres que recién lloraban. E o ter recebido, numa só vez, todos os nomes e todos os sobrenomes – árvores e trigo – que remetem ao desejo que nele sempre existiu, e muitos de seus versos o comprovam: soy el árbol de en enero ou, soy solo tierra de Navegaciones y regresos, Yo soy este desnudo / mineral de Las piedras del cielo, de se constituir parte dos reinos da natureza. Nos versos  de “Yo me llamaba Reyes...”  sua humildade se mostra, como a soberba, verdadeira  e necessária num sentir antagônico: por eso soy tanto y tan poço, / tan multitud y tan desamparado  que, igualmente, faz pensar em outras expressões do poeta ao oferecer a sua voz aos pobres, aos perseguidos, aos humilhados ( yo vengo a hablar por vuestra boca muerta  do Canto General) aos quais, muitas vezes, se iguala ( Porque donde no tiene voz um hombre / allí, mi voz. Donde los negros sean apaleados, / yo no puedo estar muerto. / Cuando entren en la cárcel mis hermanos / estaré yo con ellos de Los versos del capitán).
            Nos dois últimos versos do poema, a explicação destas antíteses que os antecedem, porque vengo de abajo /de la tierra, onde, a idéia de pertencer às classes populares ( que as elites costumam designar pelo adjetivo baixas)  se reafirma com a expressão da terra. Expressão que neutraliza o que de pejorativo exista em  venho de baixo,  ao conter esse significado, liricamente pleno  que é sempre  o que Pablo Neruda  confere à terra nos seus poemas: Mi pacto con la tierra, ou palpitó la tierra, ou  fragancia secreta de la tierra do Memorial de Isla Negra por exemplo. Ou,  engrandecida pela inconfundível visão de mundo solidária  do poeta: tierra[..]),madre fecunda, / madre del pan y del hombre / pero / madre de todo el pan y de todos los hombres de Navegaciones y regresos.
            Assim, embora Pablo Neruda use um verbo no passado ( Yo me llamaba Reyes)  para falar do nome paterno que repudiou para poder assumir o seu caminho de poeta e de verbos no passado para falar de seu nascimento, ao se definir, neste poema feito já no fim da vida, usa o verbo no presente, por eso soy tanto y tan poco / tan multitud y tan desamparado,   para  retornar às origens. Não as renega por humildes, como tampouco se despoja dessa assunção – ser todos os homens – que lhe determinou, numa teimosa fidelidade a si mesmo, a rota de seus dias.

Cecilia Zokner in Literatura do ContinenteO Estado do Paraná, Curitiba, 1 de julho de 2001