Divisão dos Arquivos

O Blog Pablo Neruda Brasil está apresentado em quatro seções obedecendo à data de publicação da matéria:

Arquivo Cecilia Zokner

Os breves textos sobre a poesia de Pablo Neruda foram publicados sob a rubrica Literatura do Continente no jornal O Estado do Paraná, Curitiba e fazem parte, juntamente com outros textos versando sobre Literatura Latino-americana, do Blog http:\\www.literaturadocontinente.blogspot.com.br. Os demais, em outras publicações.

Arquivo Adriana

Chilena de Concepción, amiga desde 1964, quando convivemos em Bordeaux, ao longo dos anos me enviou livros e recortes de jornal sobre Pablo Neruda. Talvez tais recortes sejam hoje, apenas curiosos. Talvez esclareçam algo sobre o Poeta ou abram caminhos para estudos sobre a sua obra o que poderá, eventualmente, se constituir uma razão para divulgá-los.

Arquivo Delson Biondo

Doutor em Literatura na Universidade Federal do Paraná. No ano do centenário de nascimento de Pablo Neruda, convidei Delson Biondo, meu ex-aluno do curso de Letras para trabalharmos sobre “Las vidas del Poeta, as memórias de Pablo Neruda”, constituídas de dez capítulos, publicados, em espanhol, na revista O Cruzeiro Internacional, no ano de 1962. Iniciamos o nosso trabalho com a sua tradução, visando divulgar, no Brasil, esse texto do Poeta que somente anos mais tarde iria fazer parte de seu livro de memórias Confieso que he vivido. Todavia, várias razões impediram que a tradução fosse publicada no Brasil, mas continuamos a trabalhar sobre “Las vidas de Poeta” no que se referia aos aspectos formais comparativamente a esses mesmos textos que passaram a fazer parte de Confieso que he vivido. Além desse estudo comparativo, pretendíamos nos aproximar, minuciosamente de cada um dos capítulos de “Las vidas del Poeta”. A comparação foi realizada e o estudo do primeiro capítulo concluído. Estávamos já, terminando a redação do estudo do segundo capítulo quando Delson Biondo veio a falecer em maio de 2014. Assim, as notas comparativas dos textos nerudianos e o estudo do segundo capítulo de “Las vidas del Poeta” não foram concluídos. Penso que a eles nada devo acrescentar.

Arquivo Aberto

Arquivo Aberto à recepção de trabalhos escritos em português ou espanhol que tratem da obra de Pablo Neruda, obedeçam às normas da ABNT e sejam acompanhados de um breve curriculum do autor. Os trabalhos poderão ser enviados para publicação neste Blog pelo e-mail pablonerudabrasil@gmail.com.

11 de junho de 1995

O efêmero


Quando Jardin de invierno foi publicado em 1974, Pablo Neruda não mais existia. E esses versos que deixou são, muitas vezes, tristes e verdadeiros.
Mas, embora já fosse possuidor da surpreendente compreensão que os anos e seu peso concedem a alguns e da melancolia definitiva que esse compreender, por sua vez, pode ocasionar, a sua ímpar e inigualável capacidade para encontrar tesouros em pequenos nadas, permaneceu intocada.
Em Confieso que vivi, o poeta faz o relato de sua viagem à China, em 1957, e, por momentos, lhe descreve a paisagem que descobre muito próxima das velhas pinturas chinesas.
Navegando pelo rio Yang-tsê-Kiang, tendo diante dos olhos suas margens cambiantes, sente que dessa natureza grandiosa se desprende uma profunda poesia: poesia breve e despojada como o vôo de uma ave ou como o relâmpago prateado da água que flui quase imóvel entre os muros de pedra.
O efêmero, uma breve beleza que somente o olhar daquele que se confessa – o Simpósio organizado pela Biblioteca Nacional de Santiago, em 1964, para marcar os seus sessenta anos, registra essa confissão – perseguido pelos acontecimentos de sua vida e pela natureza que não deixa de chamá-lo com suas múltiplas vozes, pode reter. E, dessa fugidia imagem, criar algo de humanamente eterno.
Como o encontro com o pássaro. Na primavera, na Normandia, elegante, patas delgadas, dois riscos azuis, nervosos olhos, ardentes plumas, se aproximou do poeta intrépido e curioso. Mas, ao encontrar um grão qualquer, um inseto qualquer, se afasta, abandona o enigma / deste gigante que fica só / sem sua pequena vida passageira.
O poema faz parte de Jardim de invierno e, reiterando um antigo tema – o pássaro – acompanhado de outro que nunca deixou de estar presente na sua obra mas que, nesse tempo em que se aproxima da morte, se faz mais constante e espontâneo: a solidão.
Assim, esse poder se extasiar sempre diante da natureza, seja ela o bosque, a chuva, o mar, seus habitantes, o leva a descrever o pássaro que dele se aproxima aos pequenos saltos e que aos pequenos saltos dele se afasta e a interpretar-lhe o olhar, as interrogações nele contidas.
Perguntas que o poeta – pobre humano possuidor apenas de um tempo limitado – não pode responder.

Gigante diante do pássaro, é tão frágil quanto ele. Sozinho, é também dono de somente uma vida passageira.

Cecilia Zokner in Literatura do Continente, O Estado do Paraná, Curitiba, 11 de junho de 1995

4 de junho de 1995

Quase em louvor do cinema

Arquivo Cecilia Zokner

Entre os mais belos poemas de amor que Pablo Neruda selecionou para compor Todo el amor, publicado em 1971 pela Losada de Buenos Aires, figura “Oda a un cine de pueblo”. Um desses poemas em que Pablo Neruda fixa algo de um momento mágico de sua vida cuja ingenuidade aparente torna mais forte um dizer pleno de sugestões.
Sem dúvida, nada mais modestamente simples do que a primeira estrofe, Meu amor, / vamos ao cinema do povoado. Seguem-se os versos que dão conta do tempo – é noite e de bom tempo, pois, se trata de uma noite transparente de estrelas visíveis. Na mesma estrofe, outra vez, o tom prosaico tu e eu entramos no cinema do povoado, que se transforma com a informação de que é um cinema cheio de crianças e que cheira a maçã. Nele, na sua tela já da cor da pedra e da chuva, passam os velhos filmes: e a prisioneira, e os cavalos, e os vaqueiros furando com seus tiros a perigosa lua do Arizona e a luta e a avalanche emplumada / dos índios / abrindo seu espaço na planície.
Pablo Neruda se confessa com a alma em suspense diante desses ciclões de violência. E na estrofe seguinte – certamente o filme acabou e as luzes se acendem – nota que muitos jovens do povoado, dormiram cansados do dia de trabalho.
O poeta retorna, nos últimos versos, ao vocativo inicial meu amor já agora para traçar – usando o pronome nós – um caminho de participação intensa. Um afã de viver plenamente, faremos nossas, todas as vidas verdadeiras e de acreditar nos sonhos, em todos os sonhos. Na aventura do futuro, na certeza de que será como deseja, envolve o ser amado, essa mulher que deseja a seu lado, companheira.
A mulher que – diante daqueles velhos filmes de “cow-boy”, fazedores de festa na matinés de domingo, em que os altos e loiros, armados de armas de fogo eram sempre vencedores na destruição dos escuros e toscos – possa, como ele, se emocionar e temer pelos vencidos.Também, lastimar a perversidade das imagens, enfatizando um Bem passível de se transformar em Mal, ao sul do rio Bravo, se o olhar que sobre eles se pousam não estivessem a priori, obnubilados por conceitos falsos. A mulher que saiba sonhar com ele um outro mundo para o Continente.

Em que desde crianças seus habitantes já soubessem distinguir os verdadeiros heróis quando na luta brilhasse a lua do Arizona.

Cecilia Zokner in Literatura do Continente, O Estado do Paraná, Curitiba, 4 de junho de 1995

24 de setembro de 1994

As flores e os frutos

Quero que o que eu amo siga vivo
e a ti eu te amei e cantei sobre todas as coisas,
por isso continua florescendo, florida.
Pablo Neruda.

            Cien sonetos de amor, como outros de seus livros publicados entre 1958 e 1964 é, no dizer de Emir Rodriguez Monegal, o livro das folhas outonais de Pablo Neruda. Um livro que se inscreve nesse momento da vida do poeta em que se revelam as experiências mais complexas e profundas que ele irá aprisionar nas leis do soneto. Não mais aquele soneto clássico, feito para cantar com perfeição a mulher amada mas outro, pleno, também, do poético encontrado no mais chão do cotidiano. Porque Pablo Neruda se apropriando das coisas e dos seres, na sua avidez de existir e no seu poder de forjar maravilhas lhes dá vida com as palavras. Sejam elas oriundas do mais simples e real prosaico, sejam possuidoras da força de sugestão exigida para a elaboração do poético. Fiel a si mesmo, nos Cien sonetos de amor em que a presença da mulher amada se faz de enumerações, de comparações, de metáforas, de confissões, de lembranças, do vislumbrar do futuro, a sua emoção se ampara, ainda uma vez, dos elementos da terra: e âmbar, areia, turquesas, ágata, esmeraldas, metais e cereais e flores e frutos. Referências à acácia, amapola, amaranto, cravo, gardênia, jasmim, madressilva, magnólia, nenúfar, rosa e violeta se espalham pelos sonetos, assim como aquelas a uns poucos frutos: ameixa, amêndoa, laranja, limão, maçã, melancia, pêssego, uva.
            Acácia, amapola, amaranto, gardênia, magnólia, madressilva, nenúfar (exceção feita da madressilva cuja referência é feita ao perfume que exala e da gardênia num verso onde se vislumbram suas inquietações sociais), são expressões que aparecem uma única vez e para delinear Matilde: tens peso de acácia, de legume dourado, e tu irás aparecer em outra estrela, /determinadamente transitória, /convertida por fim em amapola, se tinge tua boca de amaranto, oh! radiante magnólia desatada na espuma, deixa que teus quadris imponham na água /uma nova medida de cisne ou nenúfar.
            Ao jasmim e à violeta são feitas duas referências: numa delas, jasmim aparece para dar idéia de um romper da ordem natural das coisas, em outra, metaforicamente, significando as pegadas de Matilde. E, violeta, num epíteto, significando um amor áspero, violeta coroada de espinhos, e para designar a voz de Matilde, carregada de violetas.
            Quase numa dezena de vezes é a presença do cravo e da rosa: o cravo, usado, sempre, no plural, terá função de espaço (ali onde respiram os cravos), será gosto na boca do poeta, fruto da terra, qualidade de Matilde nos seu desprender de aromas e recompensa (os amantes felizes têm direito a todos os cravos). A palavra rosa aparece tanto no singular quanto no plural. Para descrever o mar e suas ondas ou comparada a uma pedra do mar ou à luz que traz Matilde nas mãos, ou objeto de seus cuidados ou numa comparação em que o poeta reafirma o amor que sente e, ainda, num epíteto para o amor: rosa molhada por sereias e espumas.
            Quanto aos frutos, o poeta repetirá, sobretudo, a palavra uva. Para dizer do estilo de Matilde (estilo de uva grande), para definir o amor e numa comparação em que desditas são comparadas à uvaspequenas que juntaram o verde amargo. Também, repetidas vezes, a palavra maçã: dando-lhe a primazia de poder tocar Matilde: Não te toque a noite, nem o ar, nem a aurora, /só a terra, a virtude dos cachos, /as maçãs que crescem ouvindo a água pura), e para esboçar um espaço de luz e de liberdade.
Duas vezes aparecerão melancia e laranja. No soneto XX os beijos de Matilde são comparados ao frescor da melancia e no soneto LXXVI, a sua boca é a melancia; no soneto XCIX, o poeta a vê caminhando entre as melancias. Da laranja é a cor da vespa e laranja é, como o relógio, claridade ou sombra, alvo de despedidas. Limões são luz; pêssegos, como a ágata e o trigo, matérias próprias para erigir a estatua de Matilde. Ameixas são o perfume de sua sombra, amêndoa, a pele que o poeta almeja. Por castanha, a qual acrescenta o adjetivo despenteada, designa a mulher amada.
            Esse curioso emprego do adjetivo, antropomorfizando o fruto se constitui uma das muitas surpresas que oferecem os sonetos nerudianos de Cien sonetos de amor. Mas, há, igualmente, além dessas surpresas ancoradas no inesperado do adjetivo (rosa molhada por sereias e espumas, uvas tempestuosas), as que inventam um mundo de contradições (violetas coroadas de espinho, povoados lancinantes de andrajos e gardênias) ou que rompem a lógica nesse dizer em que os limões desprendem luz e as sombras, perfumes.
            Assim, num dizer prosaico do dia a dia ou na esmerada riqueza de um verso perfeito, são cores e perfumes e formas que emergem num desabrochar e florescer de emoção para delinear ou homenagear Matilde. E, ao envolvê-la ou entrelaçá-la nesses frutos e nessas flores, dádivas da terra, Pablo Neruda se mostra, como nunca, nos seus melhores e verdadeiros ímpetos de lirismo.

Cecilia Zokner in Literatura do Continente, O Estado do Paraná, Curitiba, 24 de setembro de 1994


28 de agosto de 1994

A alma escondida

Arquivo Cecilia Zokner

Um poema de Memorial de Isla Negra começa com um peremptório e certamente polêmico verso: Que bom é todo o mundo! Então, Pablo Neruda enumera nomes de pessoas boas e torna quase lei essa bondade que ele atribui a todos, embora lhe ocorra que, talvez, somente tenha lhe tocado conviver com o bom grão ou com aqueles que, impenetráveis, não se deixam ver na sua bondade.
Diante de irrefutáveis provas de atos que possam contradizer suas certezas, Pablo Neruda continua a acreditar na qualidade que é negada por aquele que comete um crime ou que insulta os outros. Daí, ele concluir que há muito que arrumar neste mundo, / para provar que todos somos bons / sem ser preciso se esforçar: não podemos / transformar a bondade em pugilato. / Assim ficariam despovoadas / as ci­dades, onde / cada janela esconde com cuidado / os olhos que nos buscam e não vemos.

Esse mesmo olhar de Pablo Neruda que percebe o segredo dos homens, que explica a bondade do criminoso como uma avareza do sentimento não entregue irá se pousar no ina­nimado e descobrir-lhe o frêmito escondido.
Como um ser mítico, o poeta descobre a vida nesse suceder de riquezas que se exibe no mercado e como que um detentor de poderes mágicos, pela palavra faz com que re­nasçam em tons, em perfumes.
Pablo Neruda sugere e insinua ao descrever esse micro universo de legumes e de frutas numa retórica ex­tremamente afetiva. Emergem do prosaico anonimato do mercado como seres especiais não somente possuidores de cor e de aroma como de uma hierarquia que lhes é concedida por elemen­tos antropomórficos. Assim, é caracterizado o queijo: Não veio aqui só para ser vendido: / veio para mostrar o dom de sua matéria, / sua compacta inocência, / o espessor materno de sua geologia. Assim, é caracterizado o vinho, sempre be­ligerante, áspero e vermelho, ou a apressada alface, o risonho tomate, a pálida maçã.
No âmago do homem que se revela para o poeta pura polpa de fruta, na brevidade dessas pequenas existências - e a cenoura, e o nabo, e a menta, e a batata - o poeta en­contra uma fonte de inspiração que se inscreve na essência dos seres.
É um poetar que encontra desconhecidos tesou­ros na alma dos homens e algo de humano nas frutas, nos legu­mes, nos queijos e nos vinhos que se exibem no cotidiano do mercado.

Feito de verdades ou de invenções, talvez se­jam versos que testemunhem além dos limites da razão. Ou, apenas mostrem o que escondem os homens nos seus invólucros humanos e o que não é percebido nos frutos da natureza.

Cecilia Zokner in Literatura do Continente, O Estado do Paraná, Curitiba, 28 de agosto de 1994

10 de julho de 1994

Raízes

Arquivo Cecilia Zokner

... sou das vinhas negras de Par­ral...
Pablo Neruda

Em 1964 foi publicado El memorial de Isla Ne­gra pela Editorial Losada de Buenos Aires. Uma autobiografia escrita em versos cuja nota maior, apesar das indignações e das melancólicas reflexões que o olhar para o mundo faz emer­gir é a alegria de viver, a felicidade de criar.
Pablo Neruda o escreveu, dizem, para festejar os seus sessenta anos e o fez, transformando em poesia as lembranças do passado e as inquietações que o levaram pelos caminhos do mundo.
O livro está feito em cinco partes: Onde nasce a chuva, A lua no labirinto, O fogo cruel, O caçador de raízes, Sonata triste e se inicia com o poema “Nascimento”. Nas suas quatro primeiras estrofes, a voz de um narrador, anunciando o nascimento de um homem entre tantos outros e que entre muitos, viveu. Mas, ele diz, a história não está aí e sim na terra, terra central do Chile.
Esse deslocamento do foco de interesse, do homem para o espaço físico, adquire maior importância na se­gunda estrofe de três versos onde aparece o topônimo Parral ligado àquele que nasceu no inverno.
Delineia-se nesse verso, a presença do poeta, nascido no dia 12 de julho.
Na estrofe seguinte, o foco de interesse ainda se mantém fixo no espaço para narrar a sua destruição pelo terremoto do qual se salvaram alguns homens e o vinho. Do pó em que tudo se transformou, somente as parreiras perse­veraram em dar uva e vinho.
Assim, como já fora feito no Canto geral, o tom épico desaparece e surge o eu confessional, intensamente lírico. Um eu que se submerge em busca do passado mas nele o que está inscrito perdura sem imagens dos rostos, das figu­ras, das paisagens.
Nenhum apelo ou desejo imenso - esse querer do filho em vislumbrar o desconhecido rosto materno, ultra­passa as barreiras do tempo e da morte: E como nunca vi / seu rosto / a chamei entre os mortos, / para vê-la, / mas como os outros enterrados, / não sabe, não ouve, não respon­deu nada, / e ali ficou sozinha, sem seu filho, / arredia e evasiva / entre as sombras.
Dessa solidão que imagina - a mãe que mal ti­vera nos braços o filho antes de morrer tuberculosa - e da sua, ao perdê-la, sem ao menos ter lembranças de seus traços, parte a procura do passado.
Retoma, então, a presença esboçada na segunda estrofe - Parral se chama o lugar / do que nasceu / no in­verno e o topônimo primeiro de sua vida de caminhante para definir raízes que se mesclam na terra e na mãe que nessa terra está sepultada: E dali, sou, daquele / Parral de terra trêmula, / terra carregada de uvas / que nasceram / de minha mãe morta.
A trajetória em busca do passado - a figura do pai, da mulher que lhe serviu de mãe, as descobertas do menino, os amores, a consciência política - continuam a se transformar em verso. Sobre a terra pulverizada e desfeita pelo terremoto e sobre o desconhecido rosto da mãe já, então, o poeta se cala até que num dos poemas do final de sua vida, entre tantos que falam de solidão, morte e desesperança, res­surgem as raízes, raízes alastradas pelas terras do Chile.

Invicto, como que invicto, ele reafirma: Eu sou de Iquique, / sou das vinhas negras de Parral, / da água de Temuco, / da terra delgada, / sou e estou.

Cecilia Zokner in Literatura do Continente, O Estado do Paraná, Curitiba, 10 de julho de 1994

3 de julho de 1994

Ano 2000

Arquivo Cecilia Zokner

Pablo Neruda morreu no dia 23 de setembro de 1973, em meio aos desatinos
do golpe militar que, doze dias antes, haviam dado morte a Salvador Allende.
Cumprira, no dia 12 de julho, sessenta e nove anos. Seus últimos poemas, publicados postumamente pela Edi­torial Losada de Buenos Aires, embora expressem as novas cer­tezas e dúvidas que a aproximação da morte pode revelar, não abandonam velhos motivos.
Emir Rodriguez Monegal, num trabalho publi­cado nas Actas do Simpósio Pablo Neruda, realizado na Univer­sidade Carolina do Sul, em 1974, ao relacionar as Memórias de Pablo Neruda com as histórias de sua vida, faz referên­cia a essa passagem do épico para o dramático ou a essas per­sonificações em que o poeta deixa de ser ele mesmo para se converter noutra pessoa, uma constante nos seus poemas.Assim, diz o crítico uruguaio, a assunção da voz dos índios construtores de Machu Pichu, o se situar entre os mineiros, os trabalhadores em greve, as vítimas da explo­ração, os que lutam para dar um basta às iniquidades sociais. Uma identificação do poeta com os pobres que o acompanhará até o fim de seus dias.
Em 2000, um de seus oito livros póstumos, dois poemas são disso a prova. O primeiro tem por título “Os homens” e se inicia com o pronome de primeira pessoa. Um eu determinado, eu sou Ramón González Barbagelata, proveniente de qualquer lugar. Os topônimos se sucedem, antes que a apre­sentação se complete: sou o pobre diabo do pobre Terceiro Mundo. Aquele que chegou - o verbo no passado está anteci­pando o futuro - no ano 2000 com o fardo da pobreza de sem­pre: com o barraco de sempre, com a escola sem recursos de sempre, com os farrapos, a má sorte e os piores empregos de sempre; para quem é lícito se perguntar: com o ano 2000 que eu tenho que ver / com os três zeros que se ostentam / glori­osos / sobre meu próprio zero, sobre minha inexistência?
Como resposta a um interlocutor é o poema que segue, intitulado, “Os outros homens”. Igualmente, se inicia com uma primeira pessoa que se rotula anarcopitalista furi­bundo, disposta a tirar proveito do que se lhe ofereça: Eu respiro à vontade / no jardim bancário deste século / que fi­nalmente é uma grande conta corrente / na qual por sorte sou credor.
E, tão veraz como Ramón González Barbagelata no testemunho de sua miséria, este “anarcopitalista” ao se beneficiar, vê somente beleza no milênio que se inaugura: os três zeros nos resguardam de toda insurreição desnecessária.
A perversa dicotomia das duas vozes, mostram, sem complacência, um Pablo Neruda vencido nas suas esperan­ças: o pobre do Terceiro Mundo a entrar no ano 2000 como sem­pre foi e proclamando o supérfluo da inauguração do milênio; e o rico perseverando, confiante, nos seus objetivos que prescindem de transformações para serem alcançados. Para ele, basta um novo dicionário para mudar o nome das coisas que po­derão continuar a serem as mesmas.
Entre essas vozes que assumem o explorado e o explorador, a comovente expressão do poeta: Ai daquele cora­ção que esperou sua bandeira / e do homem entrelaçado pelo amor mais terno, / hoje não resta mais do que meu vago esque­leto [...].
Após tantas lutas e a enorme esperança vã - igualdade na liberdade - do Chile de Salvador Allende, o so­nho eterno, o sonho necessário de que fala, em setembro de 1973, Jean Jacques Servan-Scheriber, para Pablo Neruda se tornou irrealizável. Porque nos últimos doze dias de sua vida a força desprovida de razão dos que decidiram reestruturar o país lhe fizeram ver abismos de injustiças, repressão, massa­cre, torturas inimaginadas.

O primeiro verso de seu livro 2000 vatici­nara: Piedade para estes séculos e seus / sobreviventes.

Cecilia Zokner in Literatura do Continente, O Estado do Paraná, Curitiba, 7 de junho de 1994

26 de junho de 1994

Quatro estações

Arquivo Cecilia Zokner

           Em 1974, foi publicado, pela Losada de Buenos Aires, Jardin de invierno, uma das oito obras inéditas de Pa­blo Neruda dadas à luz após sua morte. É um pequeno livro de vinte poemas feitos, principalmente, de uma irremediável e desesperançada tristeza.

            A tristeza do inverno, o inverno verde e ne­gro, o inverno que chega e faz do poeta esse círculo que espera. Desalentadora espera de quem se sabe prisioneiro da imutável trajetória do ser humano, conduzindo à morte e, so­bretudo, dessa nova verdade induzida pela aproximação do fim: não há mais nada para decifrar, / nem nada mais que falar: isso era tudo: / fecharam-se as portas da floresta, / circula o sol abrindo as folhagens, / sobe a lua como fruta branca / e o homem se acomoda a seu destino.
            E o tempo, cada estação adquire as cores que o olhar do poeta lhes concede. No poema “Outono”, é a visão da cidade às vésperas de uma convulsão onde se instala o ou­tono vestido de soldado. Em “Jardin de invierno”, o outono se mostra dadivoso e chega para estabelecer a escrita do vi­nho e, como o estio é, igualmente, passageiro.
            Na segunda vez que aparece referência à esta­ção do calor é como um motivo para amargas reflexões. Não vou ao mar neste amplo verão coberto de calor, quase prosai­camente, o poeta informa. Mas, o tom se adensa principalmente na última estrofe quando ele torna a dizer: Não saio ao mar este verão, para explicar então: estou encerrado, enterrado e ao longo / do túnel que me leva prisioneiro / ouço remota­mente um trovão verde, / um cataclisma de garrafas quebradas, / um sussurro de sal e de agonia.
            A oposição que se estabelece entre seu des­tino de preso e de condenado e o poderio do mar vai se repe­tir no poema “Con Quevedo, na primavera”. Na primeira es­trofe, irrompem as cores - e o azul e o amarelo e o verde e a sugestão do vermelho no nome de uma flor - como uma pequena aquarela que se enche de vida com o ar novo, com o tácito fulgor, ofertas de uma longa primavera.
            Mas, logo na segunda estrofe, o ar e a cor imaginados cedem lugar a um vazio - só não há primavera em meu recinto - e ao que pode ser os votos de uma fada má: Doenças, beijos desquiciados, / como heras de igreja se co­laram / nas janelas negras de minha vida / e só amor não chega, nem o selvagem / e extenso aroma da primavera.
            Como se nesses dias que se sabe são os dias em que se aproxima do fim, já nada pudesse lhe agradar - o sorriso, a medalha laudatória, dinheiro, livros, beijos, ca­minhos pela frente - já nada lhe fosse dado usufruir: o ho­mem eu, o mortal, se cansou.
            Mas, em acorde com o título do livro conce­bido em claro-escuro - jardin, sugerindo cor e vida, e invi­erno, um interregno de aspereza e nudez -, muitos dos poemas nele contidos se iluminam de palavras que remetem a uma natu­reza cheia de vida.
            Mau grado a desolação do poeta, esse seu de­sejo de fugir de si mesmo e do significado da existência como diz nos versos de “Animal de luz”, ele não se nega ao espetá­culo da vida.
            E, assim como fala dessa rosa que irá cair, fala, também, do caroço de pêssego que voltará a germinar. Das primaveras que se extinguem para tornar a despertar.

            Se cada estação do ano lhe sugere tristezas neste seu lento preparar-se para o fim, é, porém, no contínuo ciclo vital de morte e vida renovada que Pablo Neruda encon­tra, ainda, algo em que acreditar:
Esta é a hora
das folhas caídas, trituradas
sobre a terra, quando
de ser e de não ser voltam ao fundo
despojando-se de ouro e de verdor
até que são raízes outra vez
e outra vez, desfazendo-se e nascendo,
sobem para conhecer a primavera.