Em 1980, a Seix Barral de
Barcelona, publicou El rio invisible,
a poesia e a prosa dos primeiros anos de Pablo Neruda, livro que abriga a única
fotografia de sua mãe, Rosa Basoalto de Reyes, morta dois meses e dois dias
depois de seu nascimento. Entre os poemas que fazem parte desse livro, dois lhe
são dedicados e, embora, possam ser ingênuos,
segundo expressão de Volodia Teitelboim (Neruda,
Editorial Sudamericana Chilena, 1996), trazem bem forte a presença do
inconfundível lirismo que nunca deixará de marcar a sua poesia. Um dos
poemas tem por título “Luna”: Cuando nací
mi madre se moría / con una santidad de ánima en pena. / Era su cuerpo
transparente. Ella tenía / bajo la carne un luminar de estrellas./ Ella murió. Y
nací. Por eso llevo/ un invisible río entre las venas, / un invencible canto de
crepúsculo / que me enciende la risa y me la hiela. No primeiro
verso, como mais tarde e, tantas vezes, contará a sua história que se inicia sob o signo trágico da orfandade. Nos três
seguintes, o querer esboçar um perfil cuja visão lhe foi negada, o leva a uma
idealização em que as expressões santidade,
corpo transparente, luz de estrelas
traduzem uma singeleza que o trágico signo – morrer/nascer – irá amenizar tanto
quanto os versos seguintes em que os
recursos estilísticos anunciam o domínio da palavra que estará, sempre, a
serviço de uma visão de mundo, submissa aos sentimentos e as paixões. Porque,
se nos primeiros versos fala da imagem da mãe que ele próprio constrói a partir
do nada, nos quatro últimos, irá dizer do seu sofrimento diante da ausência.
Volta-se para si mesmo e se refere a esse rio invisível que lhe corre nas veias que, talvez, numa linguagem metafórica,
signifique a imensidão de lágrimas a serem vertidas e a esse canto pleno da
tristeza de um fim do dia. E o último verso do poema, como a síntese de um
soneto na confissão barroca, contraditória, de um riso que se expande e que se
gela: alegria possível de existir como passível de ser destruída.Divisão dos Arquivos
O Blog Pablo Neruda Brasil está apresentado em quatro seções obedecendo à data de publicação da matéria:
Arquivo Cecilia Zokner
Os breves textos sobre a poesia de Pablo Neruda foram publicados sob a rubrica Literatura do Continente no jornal O Estado do Paraná, Curitiba e fazem parte, juntamente com outros textos versando sobre Literatura Latino-americana, do Blog http:\\www.literaturadocontinente.blogspot.com.br. Os demais, em outras publicações.
Arquivo Adriana
Chilena de Concepción, amiga desde 1964, quando convivemos em Bordeaux, ao longo dos anos me enviou livros e recortes de jornal sobre Pablo Neruda. Talvez tais recortes sejam hoje, apenas curiosos. Talvez esclareçam algo sobre o Poeta ou abram caminhos para estudos sobre a sua obra o que poderá, eventualmente, se constituir uma razão para divulgá-los.
Arquivo Delson Biondo
Doutor em Literatura na Universidade Federal do Paraná. No ano do centenário de nascimento de Pablo Neruda, convidei Delson Biondo, meu ex-aluno do curso de Letras para trabalharmos sobre “Las vidas del Poeta, as memórias de Pablo Neruda”, constituídas de dez capítulos, publicados, em espanhol, na revista O Cruzeiro Internacional, no ano de 1962. Iniciamos o nosso trabalho com a sua tradução, visando divulgar, no Brasil, esse texto do Poeta que somente anos mais tarde iria fazer parte de seu livro de memórias Confieso que he vivido. Todavia, várias razões impediram que a tradução fosse publicada no Brasil, mas continuamos a trabalhar sobre “Las vidas de Poeta” no que se referia aos aspectos formais comparativamente a esses mesmos textos que passaram a fazer parte de Confieso que he vivido. Além desse estudo comparativo, pretendíamos nos aproximar, minuciosamente de cada um dos capítulos de “Las vidas del Poeta”. A comparação foi realizada e o estudo do primeiro capítulo concluído. Estávamos já, terminando a redação do estudo do segundo capítulo quando Delson Biondo veio a falecer em maio de 2014. Assim, as notas comparativas dos textos nerudianos e o estudo do segundo capítulo de “Las vidas del Poeta” não foram concluídos. Penso que a eles nada devo acrescentar.
Arquivo Aberto
Arquivo Aberto à recepção de trabalhos escritos em português ou espanhol que tratem da obra de Pablo Neruda, obedeçam às normas da ABNT e sejam acompanhados de um breve curriculum do autor. Os trabalhos poderão ser enviados para publicação neste Blog pelo e-mail pablonerudabrasil@gmail.com.
7 de julho de 2002
Ausência
Em 1980, a Seix Barral de
Barcelona, publicou El rio invisible,
a poesia e a prosa dos primeiros anos de Pablo Neruda, livro que abriga a única
fotografia de sua mãe, Rosa Basoalto de Reyes, morta dois meses e dois dias
depois de seu nascimento. Entre os poemas que fazem parte desse livro, dois lhe
são dedicados e, embora, possam ser ingênuos,
segundo expressão de Volodia Teitelboim (Neruda,
Editorial Sudamericana Chilena, 1996), trazem bem forte a presença do
inconfundível lirismo que nunca deixará de marcar a sua poesia. Um dos
poemas tem por título “Luna”: Cuando nací
mi madre se moría / con una santidad de ánima en pena. / Era su cuerpo
transparente. Ella tenía / bajo la carne un luminar de estrellas./ Ella murió. Y
nací. Por eso llevo/ un invisible río entre las venas, / un invencible canto de
crepúsculo / que me enciende la risa y me la hiela. No primeiro
verso, como mais tarde e, tantas vezes, contará a sua história que se inicia sob o signo trágico da orfandade. Nos três
seguintes, o querer esboçar um perfil cuja visão lhe foi negada, o leva a uma
idealização em que as expressões santidade,
corpo transparente, luz de estrelas
traduzem uma singeleza que o trágico signo – morrer/nascer – irá amenizar tanto
quanto os versos seguintes em que os
recursos estilísticos anunciam o domínio da palavra que estará, sempre, a
serviço de uma visão de mundo, submissa aos sentimentos e as paixões. Porque,
se nos primeiros versos fala da imagem da mãe que ele próprio constrói a partir
do nada, nos quatro últimos, irá dizer do seu sofrimento diante da ausência.
Volta-se para si mesmo e se refere a esse rio invisível que lhe corre nas veias que, talvez, numa linguagem metafórica,
signifique a imensidão de lágrimas a serem vertidas e a esse canto pleno da
tristeza de um fim do dia. E o último verso do poema, como a síntese de um
soneto na confissão barroca, contraditória, de um riso que se expande e que se
gela: alegria possível de existir como passível de ser destruída.
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