exprimindo as inquietudes diante de um tempo que ele sente carregado de negros presságios, em acorde com o já acontecido no século XX que chama o século da agonia. Nos primeiros versos, indaga sobre o momento em que vive, se nele haverá uma escolha entre a revolução e a mentira patriarcal. Mas, logo lhe vem a certeza da agonia que se instaura na busca da verdade e da paz; do medo em falar o que é passível de comprometer; das vítimas dos calabouços e dos fornos crematórios; da ânsia de fugir da Bomba (homens, insetos queimados ) e da vergonha de ser homem igual ao desintegrador e ao calcinado. E, na convicção de que os países continuam fabricando ameaças e guardando-as no armazém da morte, novamente, uma pergunta: E outra vez, outra vez / Até quando outra vez? Porque Pablo Neruda não esquece a Primavera de Praga (a neve salpicada pelas feridas dos mortos), a Guerra da Espanha (os punhais deixaram um milhão de ausentes), a Segunda Guerra Mundial (um milhão entrava por um forno e se convertia em cinza), as Guerras coloniais (com as colônias rebentando / como negras frutas podres / na escravidão do suor), a Guerra do Viet Nam (a quebrar todos os cristais, / a queimar crianças com napalm), a morte do Che (O comandante terminou / assassinado num barranco) e de Bem Bella, Bem Barka, Lumumba, condenados por verdugos invisíveis.
Divisão dos Arquivos
O Blog Pablo Neruda Brasil está apresentado em quatro seções obedecendo à data de publicação da matéria:
Arquivo Cecilia Zokner
Os breves textos sobre a poesia de Pablo Neruda foram publicados sob a rubrica Literatura do Continente no jornal O Estado do Paraná, Curitiba e fazem parte, juntamente com outros textos versando sobre Literatura Latino-americana, do Blog http:\\www.literaturadocontinente.blogspot.com.br. Os demais, em outras publicações.
Arquivo Adriana
Chilena de Concepción, amiga desde 1964, quando convivemos em Bordeaux, ao longo dos anos me enviou livros e recortes de jornal sobre Pablo Neruda. Talvez tais recortes sejam hoje, apenas curiosos. Talvez esclareçam algo sobre o Poeta ou abram caminhos para estudos sobre a sua obra o que poderá, eventualmente, se constituir uma razão para divulgá-los.
Arquivo Delson Biondo
Doutor em Literatura na Universidade Federal do Paraná. No ano do centenário de nascimento de Pablo Neruda, convidei Delson Biondo, meu ex-aluno do curso de Letras para trabalharmos sobre “Las vidas del Poeta, as memórias de Pablo Neruda”, constituídas de dez capítulos, publicados, em espanhol, na revista O Cruzeiro Internacional, no ano de 1962. Iniciamos o nosso trabalho com a sua tradução, visando divulgar, no Brasil, esse texto do Poeta que somente anos mais tarde iria fazer parte de seu livro de memórias Confieso que he vivido. Todavia, várias razões impediram que a tradução fosse publicada no Brasil, mas continuamos a trabalhar sobre “Las vidas de Poeta” no que se referia aos aspectos formais comparativamente a esses mesmos textos que passaram a fazer parte de Confieso que he vivido. Além desse estudo comparativo, pretendíamos nos aproximar, minuciosamente de cada um dos capítulos de “Las vidas del Poeta”. A comparação foi realizada e o estudo do primeiro capítulo concluído. Estávamos já, terminando a redação do estudo do segundo capítulo quando Delson Biondo veio a falecer em maio de 2014. Assim, as notas comparativas dos textos nerudianos e o estudo do segundo capítulo de “Las vidas del Poeta” não foram concluídos. Penso que a eles nada devo acrescentar.
Arquivo Aberto
Arquivo Aberto à recepção de trabalhos escritos em português ou espanhol que tratem da obra de Pablo Neruda, obedeçam às normas da ABNT e sejam acompanhados de um breve curriculum do autor. Os trabalhos poderão ser enviados para publicação neste Blog pelo e-mail pablonerudabrasil@gmail.com.
30 de setembro de 2001
Fim de festa
exprimindo as inquietudes diante de um tempo que ele sente carregado de negros presságios, em acorde com o já acontecido no século XX que chama o século da agonia. Nos primeiros versos, indaga sobre o momento em que vive, se nele haverá uma escolha entre a revolução e a mentira patriarcal. Mas, logo lhe vem a certeza da agonia que se instaura na busca da verdade e da paz; do medo em falar o que é passível de comprometer; das vítimas dos calabouços e dos fornos crematórios; da ânsia de fugir da Bomba (homens, insetos queimados ) e da vergonha de ser homem igual ao desintegrador e ao calcinado. E, na convicção de que os países continuam fabricando ameaças e guardando-as no armazém da morte, novamente, uma pergunta: E outra vez, outra vez / Até quando outra vez? Porque Pablo Neruda não esquece a Primavera de Praga (a neve salpicada pelas feridas dos mortos), a Guerra da Espanha (os punhais deixaram um milhão de ausentes), a Segunda Guerra Mundial (um milhão entrava por um forno e se convertia em cinza), as Guerras coloniais (com as colônias rebentando / como negras frutas podres / na escravidão do suor), a Guerra do Viet Nam (a quebrar todos os cristais, / a queimar crianças com napalm), a morte do Che (O comandante terminou / assassinado num barranco) e de Bem Bella, Bem Barka, Lumumba, condenados por verdugos invisíveis.
23 de setembro de 2001
O enterro do poeta
Isabel Allende o
chama, simplesmente, de Poeta mas, ao mencionar-lhe a casa, perto do mar, e a
paixão pelas coleções e os versos que não concluiu é como dizer-lhe o nome
neste primeiro romance que publicou, La
casa de los espíritus (1982). A
narrativa que abarca os princípios do século XX e se estende até os primeiros
tempos da ditadura chilena, instaurada em 1973, nos dois últimos capítulos do
livro, “O terror” e “A hora da verdade”, relata o destino dos personagens no
dia desse primaveril mês de setembro em que foi dado o golpe militar e nos
longos dias que se lhe seguiram. E fazem constar o que, afinal, não foi um
segredo para o mundo, os atos arbitrários, as prisões, as brutalidades, as
torturas, as traições, os ridículos, as perdas, as covardias, a especulação, a
euforia inconsciente. Também, a agonia do Poeta e a sua falta de vontade em
continuar a viver. Morreu no dia 23 de setembro e na sua casa de Santiago, meio em ruínas pela ação dos vizinhos, como
diziam os militares e pela ação dos militares, como diziam os vizinhos, foi velado por uns poucos pois seus amigos
estavam prófugos ou exilados ou mortos. E foi um pequeno cortejo que acompanhou
o caixão, simples, de madeira, coberto de flores, caminhando lentamente, entre
as duas filas de soldados com suas metralhadoras. Em dado momento do percurso, uma voz gritou o
nome do Poeta e, numa só voz, todas as vozes responderam: Presente!Agora e sempre. E se elevaram cantos e consignas
proibidas, enfrentado as armas que
tremiam nas mãos dos soldados. Ao passar o cortejo fúnebre diante de uma
construção, repetindo a homenagem que muitos anos antes, lhe haviam prestado os
mineiros de Lota, descobrindo-se ao
ouvir, num comício, o seu nome e o da poesia que iria declamar, os operários
abandonaram as ferramentas e, tirando os capacetes, formaram uma fila cabisbaixa. E seus versos, falando
de justiça e de liberdade, foram gritados pelos que o acompanhavam até a última
morada: um túmulo emprestado, diz a narradora.1 de julho de 2001
Venho da terra
É
sabido que ao morrer, Pablo Neruda deixou oito livros inéditos de poesia. Mal
dois meses se tinham passado desse aziago mês de setembro de 1973, para os
chilenos, a Losada, de Buenos Aires, publica El mar y las campanas que,
em menos de um ano terá sua edição esgotada. Fazem parte dele, quarenta e nove
poemas, muitos dos quais o poeta nem teve tempo de lhes dar um título. Para
nominá-los, a editora optou por usar o primeiro verso, ou parte dele, entre
colchetes. É o caso de “Yo me llamaba Reyes...” em que Pablo Neruda começa
lembrando seu verdadeiro sobrenome, o recebido do pai e abandonado, em 1920,
pelo pseudônimo que adotou. Tinha, dezesseis anos e além de seus versos criou,
também, como diz Emir Rodriguez Monegal, não somente poesia, mas o próprio
poeta, ao perceber-se um homem convicto da vocação que lhe foi outorgada e à
qual se submete como é preciso se submeter aos fados: a cumplir con mi
tierra y con los mios, como escreverá, mais tarde, em Navegaciones y
regresos. Fados
que explicarão, nos versos de “Yo me llamaba Reyes...”, um nascimento em meio à
pobreza e à derrota: Yo fui depositado / en la hojarasca: / se hundió
el recién nacido / en la derrota y en el nacimiento / de selvas que caían / y
casas pobres que recién lloraban. E o ter recebido, numa só vez, todos os
nomes e todos os sobrenomes – árvores e trigo – que remetem ao desejo que nele
sempre existiu, e muitos de seus versos o comprovam: soy el árbol de en
enero ou, soy solo tierra de Navegaciones y regresos, Yo
soy este desnudo / mineral de Las piedras del cielo, de se
constituir parte dos reinos da natureza. Nos versos de “Yo me llamaba Reyes...” sua humildade se mostra, como a soberba,
verdadeira e necessária num sentir
antagônico: por eso soy tanto y tan poço,
/ tan multitud y tan desamparado que,
igualmente, faz pensar em outras expressões do poeta ao oferecer a sua voz aos
pobres, aos perseguidos, aos humilhados ( yo vengo a hablar por vuestra boca
muerta do Canto General)
aos quais, muitas vezes, se iguala ( Porque donde no tiene voz um hombre / allí,
mi voz. Donde los negros sean apaleados, / yo no puedo estar muerto. / Cuando
entren en la cárcel mis hermanos / estaré yo con ellos de Los
versos del capitán). 8 de abril de 2001
O poeta e a mosca
Mudados
os nomes e o espaço, nada do que no livro é narrado deixa de ser do
conhecimento dos que acompanham (dentro do possível, pois as notícias dos
países latino-americanos somente chegam a eles, filtrados elas agências
noticiosas do Hemisfério Norte) o que acontece no Continente.25 de fevereiro de 2001
Canto General: segundo poema
11 de fevereiro de 2001
Repetição
Os
primeiros versos de “La United Fruit Co”, no tom narrativo de muitos de seus
poemas, remetem a um tempo pregresso em que soa a trombeta divina e Jeová
reparte o mundo entre as definitivas e soberanas entidades: Coca-Cola In.,
Anaconda, Ford Motors e a Compañia Frutera Inc. Esta, batizou as margens da
América Central de “Repúblicas Bananas” e, ali, estabeleceu o que Pablo Neruda
chamou de ópera bufa. Uma expressão,
certamente, precisa para designar todo esse aparato erguido para mascarar a
onipotente vontade dos impérios do dinheiro que se servem de fantoches
apátridas para exaurir o Continente. São as
moscas do circo, sábias moscas entendidas em tiranizar: os ditadores que, agraciados pelo dinheiro do Hemisfério
Norte, usufruem de um poder absoluto cujo preço é a obediência que lhes faz
satisfazer os amos, qualquer que seja a ordem recebida, entregando à miséria e
à destruição o seu próprio povo. É entre essas
moscas sanguinárias que a Companhia Fruteira desembarca, protegida pelas
leis dos ditadores de turno, para arrebatar o café e as frutas no abismo açucarado dos portos.

