Divisão dos Arquivos

O Blog Pablo Neruda Brasil está apresentado em quatro seções obedecendo à data de publicação da matéria:

Arquivo Cecilia Zokner

Os breves textos sobre a poesia de Pablo Neruda foram publicados sob a rubrica Literatura do Continente no jornal O Estado do Paraná, Curitiba e fazem parte, juntamente com outros textos versando sobre Literatura Latino-americana, do Blog http:\\www.literaturadocontinente.blogspot.com.br. Os demais, em outras publicações.

Arquivo Adriana

Chilena de Concepción, amiga desde 1964, quando convivemos em Bordeaux, ao longo dos anos me enviou livros e recortes de jornal sobre Pablo Neruda. Talvez tais recortes sejam hoje, apenas curiosos. Talvez esclareçam algo sobre o Poeta ou abram caminhos para estudos sobre a sua obra o que poderá, eventualmente, se constituir uma razão para divulgá-los.

Arquivo Delson Biondo

Doutor em Literatura na Universidade Federal do Paraná. No ano do centenário de nascimento de Pablo Neruda, convidei Delson Biondo, meu ex-aluno do curso de Letras para trabalharmos sobre “Las vidas del Poeta, as memórias de Pablo Neruda”, constituídas de dez capítulos, publicados, em espanhol, na revista O Cruzeiro Internacional, no ano de 1962. Iniciamos o nosso trabalho com a sua tradução, visando divulgar, no Brasil, esse texto do Poeta que somente anos mais tarde iria fazer parte de seu livro de memórias Confieso que he vivido. Todavia, várias razões impediram que a tradução fosse publicada no Brasil, mas continuamos a trabalhar sobre “Las vidas de Poeta” no que se referia aos aspectos formais comparativamente a esses mesmos textos que passaram a fazer parte de Confieso que he vivido. Além desse estudo comparativo, pretendíamos nos aproximar, minuciosamente de cada um dos capítulos de “Las vidas del Poeta”. A comparação foi realizada e o estudo do primeiro capítulo concluído. Estávamos já, terminando a redação do estudo do segundo capítulo quando Delson Biondo veio a falecer em maio de 2014. Assim, as notas comparativas dos textos nerudianos e o estudo do segundo capítulo de “Las vidas del Poeta” não foram concluídos. Penso que a eles nada devo acrescentar.

Arquivo Aberto

Arquivo Aberto à recepção de trabalhos escritos em português ou espanhol que tratem da obra de Pablo Neruda, obedeçam às normas da ABNT e sejam acompanhados de um breve curriculum do autor. Os trabalhos poderão ser enviados para publicação neste Blog pelo e-mail pablonerudabrasil@gmail.com.

24 de maio de 1992

América y claridad

O obscuro na linguagem é um vestígio do antigo servilismo. Pablo Neruda

Rodriguez Monegal no capítulo XIII de El viajero inmovil, seu excelente livro sobre Pablo Neruda, comenta, dele destacando algumas idéias, o discurso pronunciado pelo poeta no dia 26 de maio de 1953 quando foi realizado em Santiago o Congresso Internacional da Cultura.
Falando para intelectuais (entre eles Diego Rivera, Nicolás Guillén, Jorge Amado), Pablo Neruda enuncia alguns de seus princípios estilísticos, iniciando suas palavras com uma citação de Walt Whitman, o velho poeta americano cantor da democracia. Então, se refere ao Canto general cujos poemas, quase sempre, foram escritos em esconderijos onde Pablo Neruda se refugiava para escapar da prisão que o governo contra ele decretara. No entanto, a sua maior dificuldade, nesses momentos difíceis de fuga e isolamento, ele confessa, se constituiu, sobretudo, na luta para alcançar a simplicidade e a clareza.
Porque, se a poesia, como o pão, entre todos deve ser repartida e se os humildes do Continente não sabem ler, a simplicidade passa a ser o primeiro dos deveres do poeta. Muito me custou sair da obscuridade para a clareza porque a obscuridade verbal passou a  ser entre nós um privilégio de casta literária e os preconceitos de classe consideram como plebéia a expressão popular e a simplicidade do canto, disse, então, no seu discurso. Embora não tenha conseguido se libertar, totalmente do culto pela palavra - e o poema “Mollusca gongoriana” é, sabidamente, disso a prova - esse desejo de que a linguagem, sem deixar de ser poética, seja a do homem e não a de uma casta, é plenamente alcançado no canto XVIII, quando ele dá voz aos homens do povo: o sapateiro, o marinheiro, o pescador, o mineiro. São poemas límpidos, transparentes que Neruda escreve, como claramente diz no poema “La gran alegría” do canto XV, para esses simples habitantes que pedem                     / água e lua, elementos da ordem imutável / escolas, pão e vinho / guitarras e ferramentas.
Por esses homens Neruda lutou no Senado e para eles declamou seus poemas. Foi escutado.
No seu livro de memórias Confieso que he vivido conta que em Lota, cidade das minas de carvão, dez mil mineiros estavam reunidos na praça para um comício político no qual ele também usaria da palavra. Quando chegou sua vez e anunciaram seu nome, os dez mil mineiros, ao mesmo tempo, tiraram os capacetes prestando-lhe assim uma homenagem espontânea, imensa. Uma expressão de calada reverencia..

Ao dizer a seus pares, em Santiago, quisera deixar bem claro que para os poetas, América e claridad devem ser uma só palavra, ele oferece uma preciosa e norteadora lição da qual sua poesia é um exemplo.

Cecilia Zokner in Literatura do Continente, O Estado do Paraná, 24 de maio de 1992

29 de março de 1992

Estranhos no paraiso


Perseguido pela polícia por seus violentos discursos no senado, Pablo Neruda, para não ser preso, mudava de casa todos os dias. Foi um ano de perigo e de esconderijo, disse ele nas suas memórias, mas foi nesse ano, 1949, que ele concluiu Canto general.
Depois de imaginar essa verde terra pré-colombiana, habitada por pássaros, jaguares, anacondas e homens da cor da argila no primeiro canto e de chorar a chegada do branco destruidor; depois de enaltecer os que mais tarde lutaram para dar a essa terra a liberdade e a justiça, Pablo Neruda se defronta com os traidores.
Eles invadem a “arena”. O poeta não lhes cala os nomes: Doutor Francia, Rosas, García Moreno, Ubico, Dutra: os sátrapas, os exploradores, os diplomatas, os juízes. Lembra datas de massacres coletivos e lembra o massacre cotidiano dos explorados. E no mar de traições onde é possível o tiro pelas costas e a palavra que engana o povo ingênuo se aninham, igualmente, os que ainda chegam.
Três poemas entre os que formam “La arena traicionada” do Canto general, “La Standard Oil Co.”, “La Anaconda Copper Minig Co” e “La United Fruit Co.” sintetizam a história do imperialismo no Continente: os estrangeiros nos poços de petróleo, os estrangeiros nas minas de cobre, os estrangeiros nas terras frutíferas da América Central.
A Stadard Oil chega antes que todos com seus letrados e suas botas / com seus cheques e seus fuzis / com seus governos e seus presos. Um assassinato de presidente, um fuzilamento, um tiroteio e brilham já sobre as nuvens, sobre os mares, na tua casa / as letras da Standard Oil / iluminando seus domínios.
Da Anaconda Copper Mining Co., Pablo Neruda diz das vítimas: dos que são triturados e devorados pela mina, mortos pela polícia ou pela fome nas planícies da imensidão arenosa.
E de vítimas e desprezíveis tiranos é a história da United Fruit Co. Morte e sangue para alimentar as autoridades dos truões.    A ditadura das moscas, das sábias moscas entendidas em tirania. Entre elas, deslizam os barcos da Companhia para levar o café e para levar as frutas.
Enquanto isso, pelos abismos / açucarados dos portos,/ caíam índios sepultados/ na névoa da manhã:/um corpo roda, uma coisa / sem nome, um número caído, /um cacho de fruta morta/ derramada na podridão.
O Continente continuava a se dessangrar. Apenas, os que vieram para exauri-lo eram outros.

Como se fosse irreversível essa sina de viver de joelhos diante dos pretensos mais fortes a que o homem do Continente - ou por pobreza e ignorância ou por tosca ambição desenfreada e absoluta falta de caráter de alguns - se condenou.

                  Cecilia Zokner In
 Literatura do Continente, Jornal O Estado do Paraná, 29 de 1992 de 2002


22 de março de 1992

Paraíso ultrajado



Guanahaní fue la primera
en esta historia de martirios.

Pablo Neruda diz: chegam procurando as ilhas. E Guanahaní foi a primeira. Corria o ano de 1493.
Na América sem nome, chegam os conquistadores. Chamam-se Arias, Reyes, Rojas, Maldonados, simplesmente filhos das fomes invernais peninsulares. Ou Cortés, Alvarado, Balboa, Ximénez de Quesada, Pizarro, Valverde, Valdívia, os que ordenaram a cruel conquista sem lei em nome do rei e de Deus.
Os carniceiros desolaram as ilhas, assim Neruda lhes anuncia a chegada. E essa História e os malefícios por ela instaurados são contados nos vinte e cinco poemas que compõem o terceiro canto do Canto general.
Em barcos vieram os homens para realizar, gloriosamente talvez, a conquista da América, diz a História quase sempre calando o ultraje a que foi submetida a natureza americana, a que foram submetidos os homens que eram seus donos.
E os conquistadores - os famintos ou os velhacos - atropelam jasmins, estraçalham a terra que é sacudida, ferida, incendiada. Meninos carniceiros, se atrevem às destruições de tudo o que nela encontram. Arrasam choças e religiões e livros sagrados. E os homens que os presenteiam e lhes prestam homenagens de ouro e flores são amarrados, golpeados, feridos, despedaçados, mordidos pelos cães, queimados nas fogueiras. Ou, sobrevivem como escravos.
É pelas mãos dos verdugos e ladrões - Pizarro, o maioral porcino; Almagro, antigo e torto; Cortés, raio frio, coração morto; Valdivia, coração traidor, chacal podre - que o mapa do Novo Mundo se completa, desde a península do México até o extremo sul do Continente.
Em Cholula, os melhores filhos do Reino, atraiçoados, se esvaem em sangue, feridos por armas assassinas. Em Yucatán, por ordem de um bispo, em fumaça se transformam os livros contendo a acumulada sabedoria milenar. No Peru arrancam, cobiçosos, os metais nobres e condenam à morte o Inca. No Chile cortam a cabeça dos sete caciques que acreditaram numa embaixada de pa. Na Colômbia, degolam o príncipe e o deixam insepulto, os olhos tornados para o céu.
Histórias mergulhadas nessa dor da América que é lembrada por poucos, negada por muitos e, assim, reduzida ao silêncio. Silêncio da morte ou da servidão às quais foram condenados os Antigos donos do Continente: o que lavrou a terra, o que ergueu muralhas, o que domou, o que teceu, o que trabalhou o barro ou o ouro. Jazem todos sepultados no abismo dos tempos e é a eles que invoca o poeta:
Mostrai-me o vosso sangue e vosso sulco,
dizei-me: aqui fui castigado,
porque a jóia não brilhou ou a terra
não entregou a tempo a pedra e o grão:
assinalai-me a pedra em que caíste
e a madeira em que os crucificaram,
acendei-me as velhas pederneiras,
as velhas lâmpadas, os látegos grudados
através dos séculos nas chagas
e os machados de brilho ensangüentado.
Eu venho falar por vossa boca.

Então, nascem esses poemas alimentados de verbos tristes e de sombrias expressões onde se aninha o épico de uma luta heroica e grandiosa que no Continente é destituída de glória e eternamente perdida.

                Cecilia Zokner In
 Literatura do Continente, Jornal O Estado do Paraná, 22 de março de 1992

15 de março de 1992

O paraíso

Tierra mía sin nombre, sin América.


Em 1950 era publicado no México Canto general de Pablo Neruda, em duas edições, uma do Comité Auspiciador e a outra de Ediciones Oceano, ambas ilustradas por David Alfaro Siqueiros e Diego Rivera. Além das três edições clandestinas que apareceram no seu país, nesse mesmo ano é publicado, novamente, no México em edição popular e na França, Estados Unidos, China, Polônia, União Soviética, Suécia, Romênia, Índia, e Síria.
Um longo e imenso poema, dividido em quinze partes. Cada uma delas, por sua vez, é composta por vários outros cujo aspecto formal e cujo tema - o desenho da América pré-colombiana, a galeria de conquistadores, de libertadores, de ditadores, de anônimos perseguidos, de poetas comprometidos com o destino dos povos podem adquirir, por vezes, verdadeira autonomia em relação ao todo. São trezentos e cinqüenta e dois poemas agrupados sob quinze rubricas que, se justapondo, constroem uma história da América na qual o épico e o lírico se amalgamam para reconstituir essa trajetória de lutas e traições que marcaram cada um de todos os dias da América e dela fizeram um espaço de desencontros.
Parte do Continente, Pablo Neruda assume nos poemas que formam a décima quinta parte da obra um eu que traduz a expressão da América desde as suas primeiras vozes, anteriores à peruca e à casaca até a realidade dos dias que antecederam esse 5 de fevereiro de 1949 em que ele dá por encerrado o seu Canto general, alguns meses antes de completar os seus 45 anos.
O início de sua História, ele fixa em 1400, nos primeiros poemas “Amor América” da rubrica “La lámpara en la tierra” que abre o Canto general. Então, a América sem nome, ainda, se deixava viver sob o vento e sob a chuva. Um território inconquistado que o poeta se propõe reviver no verbo: Yo estoy aqui para contar la História. E a inicia com seis poemas, esboços dessa terra sem nome e sem donos: “Vegetaciones”, “Algunas bestias”, “Vienen los pájaros”, “Los rios acuden”, “Minerales”, “Los hombres”. Em cada um deles, em cada poema, a forma, a luz, a cor e o perfume estão a serviço das riquíssimas imagens nerudianas para compor essa visão de paraíso diante da qual os homens brancos, que chegariam depois, permaneceriam - quase todos - cegos. Até porque a busca por eles empreendida não era a busca da beleza.
E o jacarandá levantava espuma / feita de resplendores transmarinos e a lhama abria cândidos / olhos na delicadeza / do mundo cheio de rocio e do beija flor as minúsculas fogueiras / ardiam no ar imóvel.
E, assim como os bosques se elevam para ser o útero verde da América e o rio Amazonas, o pai patriarca, desliza a eternidade secreta das fecundações, o homem que pertence a esse universo é feito de pedras e de atmosfera, limpo como os cântaros, sonoro. Um homem que planta e constrói, sabe curar e escrever sobre as pedras. Multidões de povos / teciam a fibra, guardavam / o futuro das colheitas / trançavam o fulgor da pluma / convenciam a turquesa / e nas trepadeiras testeis / expressavam a luz do mundo.

São homens sem futuro porque do mar chegarão os outros. Neruda diz chegam procurando as ilhas. Corria o ano de 1493.

          Cecilia Zokner in Literatura do Continente, O Estado do Paraná, Curitiba, 15 de março de 1992

9 de abril de 1988

Um poema para os negros

            É comumente aceito entre os teóricos da Literatura que, ao se iniciar o século XX, havia um cansaço europeu em relação ao já visto e ao já conhecido, cansaço este que levou à busca de novos e estimulantes motivos de inspiração.
            Os trabalhos de Leo Frobenius sobre os fetiches africanos e a visita de Louis Mitchell à Europa, levando o gosto pelo jazz que se havia apoderado dos norte-americanos, oferecerão um tema até então ignorado e que irá se concretizar, quando, em 1921, Blaise Cendrars publica a sua famosa Antologia Negra.

            O interesse pelo negro, instalado na Europa e nos Estados Unidos chega, então, à América Hispânica.  Artistas e escritores passam a ter olhos para o que, na verdade, há muito existia ao seu redor e recriaram uma poesia que vinha sendo cultivada, esporadicamente, desde o período da escravidão com um tratamento americano e original.
            Espalhado pelo Continente americano essas novas expressões poéticas, ora se aproximam do negro atraído pelo seu exotismo, ora se detém no seu mundo interior misterioso e dramático. E, a grosso modo, farão surgir três vertentes bem definidas: a manifestação poética de tipo erudito cuja linguagem culta descreve o negro como elemento pitoresco; outra, de caráter popular e folclórico que usa a expressão dos negros na busca de efeitos musicais e rítmicos; e uma terceira, de nítida intenção política, preocupada com o perfil social do negro.
            Em Cuba e em Puerto Rico principalmente, apareceram, criados por grandes poetas, poemas que ultrapassaram o modismo e permaneceram como excelentes textos literários. O que aconteceu em quase todos os países da América -  inseridos numa ou noutra tendência - mesmo naqueles onde a presença do negro não é estatisticamente representativa, houve quem poetasse por ele ou nele se inspirasse.
            Assim, no Chile, onde se pode considerar nula a presença de indivíduos de raça negra, a Literatura pode se orgulhar de possuir um dos mais belos poemas de temática negra: “Bailando com los negros”, que faz parte de Canción de Gesta (La Habana, Imprenta Nacional de Cuba, 1960) e, também, da antologia Poesia negra de América (México, Ediciones Era, 1976).
            Sem o convívio com os negros, e em consequência, sem fonte próxima de inspiração, foi obedecendo a sua visão de mundo, voltada para o social, que esse poema de Pablo Neruda denuncia os preconceitos e maus tratos de que sempre foram vítimas os negros do Continente americano. O Poeta esteve em Cuba em 1942 e, talvez, “Bailando com los negros” seja um poema circunstancial:  conhecer de perto também as injustiças com o homem negro o incitaram a com ele se irmanar. Curiosamente, no poema, irmanar-se na dança e não na preconização da luta que iria advir anos depois com a Revolução cubana. Um irmanar-se que sempre foi expressão do poeta chileno em relação às injustiças e misérias das quais foi ao longo de toda a sua vida um portentoso adversário.
            Na década de 50, Pablo Neruda escreveria: Porque onde não tenha voz um homem / ali, minha voz / Onde os negros receberam pauladas / eu não posso estar morto.

Dançando com os negros
                                          Negros do Continente, ao Novo Mundo
                                          destes o sal que lhe faltava:
                                          sem negros não respiram os tambores
                                          sem negros  os vilões não tocam.
                                          Imóvel era   nossa verde América
                                          até que se moveu como palmeira
                                          quando nasceu de um casal de negros
                                          o baile de seu sangue e sua graça/
                                          E depois de sofrer tantas misérias
                                          e de cortar até morrer, a cana
                                          e de cuidar de porcos lá no mato
                                          e de carregar as pedras mais pesadas
                                          e de lavar pirâmides de roupa
                                         e de subir carregados as escadas
                                          e de parir sozinha no caminho
                                          e de não ter prato e nem colher
                                          e de receber mais pauladas, que salário
                                          e de sofrer a venda da irmã
                                          e de moer farinha todo um século
                                          e de correr um dia por semana
                                          e de correr como um cavalo, sempre
                                          repartindo grandes caixões de alpargatas
                                          manejando a vassoura e o serrote,
                                          e cavando caminhos e montanhas,
                                          deitar-se cansados, com a morte,
                                          e viver outra vez cada manhã
                                          cantando como ninguém cantaria
                                          cantando com o corpo e com a alma.
                                          Coração meu, para dizer isto
                                          parte-me a vida e a palavra
                                          e  não posso continuar porque prefiro
                                          ir embora com as palmeiras africanas
                                          madrinhas de música terrestre
                                          que agora me chama da janela:
                                          e me vou dançar pelos caminhos
                                          com meus irmãos negros de La Habana.

                                                                 (Tradução de Cecilia Zokner)


09 e 10 de abril de 1988, in Correio de Notícias

26 de julho de 1987

Sobre quatro cartas de Pablo Neruda

            Momentos vividos intensamente. Relatos de viagens, prólogos, discursos, poemas em prosa, testemunho sobre homens de seu tempo, reflexões, cartas. Entre 1922 e 1973, Pablo Neruda vai completando, desalinhavadamente (como ele diz), suas intermitentes lembranças que foram recolhidas por sua mulher, Matilde Urrutia e por Miguel Otero Silva, escritor venezuelano e publicadas em Para nacer he nacido (Seix Barral, Barcelona, 1978).
            As cartas, como os demais textos do livro, em número de quatro se originaram de diferentes razões e foram escritas em diferentes épocas: uma, em 1958, duas no ano seguinte e a última, em 1973.
            Irônica, incisiva, a carta que escreveu ao Presidente do Chile, Don Carlos Ibañez del Campo, no momento em que lhe era negado, como também a outros chilenos, o direito de voto. Um direito, no seu dizer, que possuíam os piores delinqüentes do país ou o seus mais hábeis exploradores. Argumenta sobre o absurdo de ter sido recebido e honrado por tantos países europeus, merecido prêmios internacionais, ter  os seus livros traduzidos em muitíssimos idiomas, fazendo, com isso, brilhar o nome de seu país e não ter o direito de votar para escolher seus dirigentes.
            Ao Presidente do México, Dias Ordaz, começa a sua carta dizendo : Me escriben  que José Revueltas, el novelista, está preso em su patria, México. Fala, com  muito carinho e admiração sobre  o compositor Silvestre Revueltas e a atriz Rosaura Revueltas irmãos do romancista, autor de uma vasta obra caracterizada pelo realismo crítico e a luta pela justiça social. E pede por sua liberdade porque, sem dúvida, é inocente mas, sobretudo porque lo queremos muchísimo.
            Em 1959, escreve ao Presidente da Academia Estadunidense de Artes e Letras para agradecer a honra de ter sido eleito sócio, compreendendo  que a homenagem se estende, também a seus conterrâneos.  No entanto, explica estar unido aos intelectuais norte-americanos contra a guerra do Vietnã e que nessas condições não poderia aceitar a distinção que lhe é outorgada das mãos de um embaixador dos Estados Unidos,  tampouco em lugares que representem o governo.
            No dia 31 de agosto de 1973, vinte  e quatro dias antes de sua morte, escreve uma carta de adesão ao General Carlos Prats que renunciou nas vésperas do golpe militar  contra Salvador Allende. Nela, fala do “empenho cego” daqueles que, mesmo a custa de uma guerra fratricida não cultivam outro interesse que o da conservação de seus próprios privilégios.
            São cartas que possuem em comum o amor que Pablo Neruda sempre expressou pelos seres humanos, pela natureza, pelos objetos. E, se constituem um valioso material para auxiliar na compreensão do homem e do poeta. Nelas, Pablo Neruda reafirma os conceitos e posições ideológicas que nortearam a sua vida cheia de sonhos sobre o porvir do homem latino-americano e da certeza sobre a função da poesia na construção do Continente.
          
26 de julho de 1987 in O Estado do Paraná 


19 de dezembro de 1971

Neruda fala em Estocolmo


ESTOCOLMO, dezembro - (AFP) - O poeta chileno Pablo Neruda, prêmio Nobel de literatura 1971, pronunciou ontem a tradicional conferência que os premiados devem, em princípio, realizar após receberem o laurel.
Embora a Academia Sueca não se mostre muito rigorosa em exigir o cumprimento desta obrigação, única imposta às personalidades premiadas pelos estatutos do Nobel, o autor de "Canto General" aderiu com gôsto, ao costume.
Anteriormente, êle e os demais contemplados dêste ano tinham ido até a Fundação Nobel, onde lhes foram entregues os cheques no valor de 450 mil coroas (mais de 86 mil dólares). Os clássicos diploma e medalha de ouro lhes tinham sido conferidos na sexta-feira passada em ato solene presidido pelo rei Gustavo Adolfo Sexto.

FÁBULA
A conferência arrancava de uma extraordinária fábula biográfica: a travessia dos Andes, do Chile à Argentina, que, em um momento de sua vida, Neruda perseguido teve que empreender a cavalo.
A luz daquela experiência inesquecível - tanto pela grandeza e perigo da paisagem como pela freqüente, quase invisível presença do gesto e lembrança humanos - Neruda esboçou logo sua doutrina poética e, enlaçado com esta, seu modo de entender o compromisso político.
Em sua descrição do passo dos Andes, que ocupou quase metade da conferência, o poeta desvendou com luxo e elegância de linguagem a majestade das alturas, o insondável dos abismos, a espessura dos bosques: "silêncio verde e branco" e, ao mesmo tempo, "ameaça de frio, neve e perseguição".
Pouco a pouco, incômodo sôbre sua montaria, o escritor ia descobrindo a "trilha estreita, deixada talvez por contrabandistas ou delinqüentes comuns fugitivos". Seus guias, por sua parte, marcavam o caminho com chametaços, rubricas vivas de sua passagem.
Chegando a uma clareira Neruda e seus acompanhantes se entregaram ao rito que, durante decênio, tinham seguido quantos a utilizaram como albergue: depositaram moedas para eventual socorro a desconhecidos dentro de um crânio de boi e dançaram, em um só pé, em tôrno da caveira.

ENSINAMENTO
E quando, por fim, a expedição chegou ao galpão fronteiriço, onde se achavam outros homens, outros desconhecidos, montanheses, curtidos que os receberam com hospitalidade fraterna, e, já refeitas suas forças, quis o poeta corresponder com algumas moedas "êles recusaram nosso oferecimento simplesmente. Eles nos tinham servido e nada, mais e neste "nada mais", neste silencioso "nada mais" havia muitas' coisas subentendidas, talvez o reconhecimento, talvez os mesmos sonhos".
- Naquela longa jornada prosseguiu o conferencista - encontrei as doses necessárias à formação do poema. Ali me foram dadas as contribuições da terra e da alma. E penso que a poesia é uma ação passageira ou solene, em que entram, em iguais medidas, a solidão e a solidariedade, o sentimento e a ação, a intimidade de si mesmo e a secreta revelação da natureza.
Há "um ensinamento - prosseguiu - que o poeta deve aprender dos demais homens: não há solidão inexpugnável. Todos os caminhos levam ao mesmo ponto, à comunicação do que somos".
            - Os inimigos da poesia não estão entre os que a professam ou resguardam, mas na falta de concordância do poeta. Daí que ninguém tenha inimigo mais essencial que sua própria incapacidade para entender-se com os mais ignorados e explorados de seus contemporâneos - disse Neruda.

CONSCIÊNCIA
Porque "o poeta não é um "pequeno deus", não está marcado por um destino cabalístico superior ao dos que exercem outros afazeres e ofícios. Freqüentemente disse que o melhor poeta é o homem que nos entrega o pão de cada dia, o padeiro mais próximo, que não se crê um deus".
- E se o poeta chega a alcançar esta simples consciência, poderá também a simples consciência converter-se em parte de um artesanato colossal, de uma construção simples ou complicada, que é a construção da sociedade. Só por êste caminho inalienável de homens comuns é que chegaremos a restituir à poesia o largo espaço que nós mesmos lhe vamos dedicando em cada época.
- Nós mesmos vamos criando os fantasmas de nossa própria mitificação - insistiu o prêmio Nobel. Da argamassa do que fazemos, ou queremos fazer, surgem mais tarde os empecilhos para nosso próprio e futuro desenvolvimento.
Prosseguiu criticando o "realismo" e o "idealismo" poéticos. "Impomo-nos um realismo que posteriormente se torna mais pesado que o ladrilho das construções, sem que por isso tenhamos erigido edifício que contemplávamos como parte integral de nosso dever. E em sentido contrário se alcançamos a criar o fetíche do incompreensível (ou do compreensível para poucos), o fetiche do seleto e do secreto se suprimimos a realidade e suas degenerações realistas, logo nos veremos rodeados de um terreno impossível, com fôlhas barro e nuvens," no qual "nos afoga, uma incomunícação opressiva".

PARTIDÁRIO
- Quanto a nós em particular, escritores da vasta extensão americana escutamos sem trégua o chamado para preencher éste enorme espaço com seres de carne e osso. Necessitamos encher de palavras os confins de um continente mudo e nos embriagam essa tarefa de fabular e nomear. Talvez se seja esta a razão determinante de meu humilde caso individual e nestas circunstâncias, meus excessos, ou minha abundancia ou minha retórica não viriam a ser senão atos os mais simples do afã americano de cada dia.
Como em sua aventura andina, cada um dos cantos de Neruda "aspirou a servir no espaço como signo de reunião onde se cruzaram os caminhos, ou com fragmento de pedra' ou de madeira em que alguém, outros, os que virão, poderão depositar os novos signos ".
Por isso - e então o poeta entrava na última parte de sua conferência - "decidi que minha atitude dentro da sociedade deveria ser também humildemente partidária. Compreendi colocado no cenário das lutas da América, que minha missão humana não era outra senão juntar-me à extensa fôrça do povo organizado. Herdamos a vida lacerada dos povos que arrastam um castigo de séculos, povos os mais edênicos, os mais puros,os que construíram com pedras e metais tôrres milagrosas, de fulgor deslumbrante, povos que logo foram arrasados e emudecidos pelas épocas terríveis do colonialísmo que ainda existe".
- Nossas estrêlas primordiais são a luta e a esperança: mas não há luta nem esperança solitárias. Eu escolhi o difícil caminho de uma responsabilidade dividida e, antes de reiterar a adoração ao indivíduo como sol central do sistema, preferi entergar com humildade meu serviço a um considerável exército que pode equivocar-se, às vêzes, mas que caminha sem descanso e avança cada dia, enfrentando tanto os anacrônicos recalcitrantes como os enfatuados impacientes.
E Neruda concluiu aprofundando êste tema da paciêncía com uma citação de Rimbaud: "A l'aurore, armés d'une ardente patience, nous entrerons aux splendides villes". (Ao amanhecer, armados com uma ardente paciência, entraremos nas esplêndidas cidades).
- Devo dizer aos homens de boa vontade, aos trabalhadores, aos poetas, que o futuro inteiro foi expressado nesta frase de Rimbau: sómente com uma ardente paciência conquistaremos a esplêndida cidade que dará luz, justiça e dignidade a todos os homens - rematou o coroado poeta chileno.



Neruda: Eu pertenço às massas populares

WASHINGTON, dezembro (AP) - O laureado poeta chileno Pablo Neruda insinuou que o escritor argentino Jorge Luis Borges pensa como um dinossauro, mas recusou-se a entrar em polêmicas.
- Nunca entrarei em disputa com Borges, afirmou Neruda, prêmio Nobel de literatura dêste ano.
- É que êle pensa como um dinossauro e isto não afeta meus pensamentos. Borges não entende nada dos acontecimentos do mundo contemporâneo, mas êle acredite que eu tampouco entendo nada. De maneira que estamos de acordo.
A divergência entre os dois notáveis homens de letras aconteceu a respeito do revolucionário Ernesto Che Guevara, que Neruda tinha elogiado. Borges pediu terminantemente que não lhe falassem em Guevara.


Arquivos Outros, O Correio do Povo, Porto Alegre, 19 de dezembro de 1971