A tradução de Cien sonetos de amor de Pablo Neruda
pelo poeta gaúcho Carlos Nejar, levando em conta o quê parece se constituir uma
evidência – ser um poeta traduzido por
outro poeta – se mostra bem longe de alcançar essa coincidência dos círculos
que seria, sem dúvida, a meta almejada. Na edição da L & PM Pocket de Porto
Alegre, 1999, são muitos os desvios e tanto no que se refere à sintaxe, quanto
ao vocabulário. Estes, devidos, principalmente, às divergências léxicas, as diferenças que existem entre certos
vocábulos parecidos de ambos os
idiomas que levam o tradutor à escolha de uma palavra em português, pela
sua proximidade com o espanhol, ignorando que a semelhança gráfica, prosódica
e, sobretudo, semântica não se realiza. Assim, perejil, por exemplo, cujo significado, em espanhol, é salsa. Na
tradução, aparece como perrexil.
Embora possa ter, segundo o Dicionario
Espanhol/Português da Porto Editora, a conotação de salsa, em português
perrexil não consta no Novo Dicionário
Aurélio ou Caldas Aulete onde
aparece como “aquilo que estimula o apetite”, significado impróprio para o
verso de Pablo Neruda: cruz verde,
perejil de la sombra radiante, luciérnaga
a la unidad del cielo condenada. Como o soneto se inicia Oh Cruz del Sur oh trébol de fósforo fragante e o verso em
questão, por sua vez, com a expressão cruz verde, é evidente que a relação do
poeta é feita entre o Cruzeiro do Sul (e não Cruz do Sul como quer o tradutor)
e a salsa que o vocábulo trébol (trevo), já usado, torna, ainda mais
aceitável na aproximação com a cruz. Isto é, na passagem do verso para o
português não foi levado em conta o poema no seu todo o quê também irá
acontecer outras vezes. Ao traduzir rachas
(vento forte), por aragem (vento
brando) e ráfaga (vento forte e
violento) também por aragem houve um
abrandamento de sentido sem que houvesse razão para isso pois a palavra
borrascas (tempestades) que antecede rachas já sugere uma rajada louca e não uma aragem louca: mi acordeón com borrascas, rachas de lluvia loca por meu acordeão com
borrascas, aragem de chuva louca. Igualmente no soneto LXIX, Pablo Neruda
se dirige à mulher amada, reconhecendo que ela chegou a sua vida brusca, incitante [...] ráfaga de rosal, trigo del viento. Contexto que exige ser ráfaga traduzido por rajada (vento forte) e não aragem (vento brando) o quê é sugerido
pelos adjetivos anteriores e pela expressão trigo
do vento, indicando um movimento mais forte. Quando usa a palavra fornada que numa de suas acepcões pode significar o que o forno coze de uma vez em lugar de padaria, o exato correspondente em português da palavra usada por
Pablo Neruda, o tradutor se aproxima do sentido do verso original (bienamada bandera de las panaderias) mas
foge de um termo que talvez tenha considerado chão. Mas, não levou em
consideração que o poeta chileno se
permite usar as palavras mais simples e usuais para imortalizar as coisas do
cotidiano. Por outro lado, se de certa maneira se aproxima do original ao
traduzir diminutos por pequenos, diminuindo, no entanto, a
força poética da expressão, ao usar bafo
(ar exalado dos pulmões) por vapor (fluído
aeriforme, produzido pela ação do calor), o tradutor limita a idéia do poema
que fala do vapor que se desprende de um boi enterrado no frio e não, apenas,
de seu respirar. A opção por apreende
(compreende) em lugar de aprende
(aprende) igualmente modifica o sentido do verso, pois é diferente la tierra aprende el húmedo destino de una
copa” de a terra apreende o úmido destino de uma taça. Igualmente
curioso é o uso de duas palavras: clave
e araña. Clave
é traduzida por clave. Mas, se no
verso em espanhol o significado é chave,
explicações dos sinais” (y la clave
redonda del rápido universo”) em português, além da conotação relacionada
com as notas musicais, há apenas uma outra: sinal ortográfico mais conhecido
como chave e usar esta conotação se afasta, sem dúvida, do sentido primeiro do
verso original. Quanto à palavra aranha entre as suas conotações está a
mesma daquela em português: animal
artrópode aracnídeo e com este sentido aparece no verso de Pablo Neruda. O soneto LXXV se inicia com o verso Esta es la casa, el mar, y la
bandera. E da casa
irá falar, do reencontro com ela depois de ausências em que foi relegada ao
silêncio e ao abandono. O primeiro terceto diz, ainda dessa volta à vida que
vai acontecendo: Lloró, lloró la casa
noche y dia/ gimió con las arañas entreabierta/ se desgranó desde sus ojos
negros. Não há dúvida que as
aranhas, como os ratos (ainda que mortos), citados num verso anterior, eram
habitantes da casa vazia. O tradutor conserva a palavra com a grafia portuguesa
(aranha) e coloca uma nota de rodapé, explicando que aranhas são pequenas carruagens puxadas por cavalos. Conotação da palavra do espanhol do
Chile, mas também do português: carruagem
leve, de duas rodas, puxadas por um cavalo.Divisão dos Arquivos
O Blog Pablo Neruda Brasil está apresentado em quatro seções obedecendo à data de publicação da matéria:
Arquivo Cecilia Zokner
Os breves textos sobre a poesia de Pablo Neruda foram publicados sob a rubrica Literatura do Continente no jornal O Estado do Paraná, Curitiba e fazem parte, juntamente com outros textos versando sobre Literatura Latino-americana, do Blog http:\\www.literaturadocontinente.blogspot.com.br. Os demais, em outras publicações.
Arquivo Adriana
Chilena de Concepción, amiga desde 1964, quando convivemos em Bordeaux, ao longo dos anos me enviou livros e recortes de jornal sobre Pablo Neruda. Talvez tais recortes sejam hoje, apenas curiosos. Talvez esclareçam algo sobre o Poeta ou abram caminhos para estudos sobre a sua obra o que poderá, eventualmente, se constituir uma razão para divulgá-los.
Arquivo Delson Biondo
Doutor em Literatura na Universidade Federal do Paraná. No ano do centenário de nascimento de Pablo Neruda, convidei Delson Biondo, meu ex-aluno do curso de Letras para trabalharmos sobre “Las vidas del Poeta, as memórias de Pablo Neruda”, constituídas de dez capítulos, publicados, em espanhol, na revista O Cruzeiro Internacional, no ano de 1962. Iniciamos o nosso trabalho com a sua tradução, visando divulgar, no Brasil, esse texto do Poeta que somente anos mais tarde iria fazer parte de seu livro de memórias Confieso que he vivido. Todavia, várias razões impediram que a tradução fosse publicada no Brasil, mas continuamos a trabalhar sobre “Las vidas de Poeta” no que se referia aos aspectos formais comparativamente a esses mesmos textos que passaram a fazer parte de Confieso que he vivido. Além desse estudo comparativo, pretendíamos nos aproximar, minuciosamente de cada um dos capítulos de “Las vidas del Poeta”. A comparação foi realizada e o estudo do primeiro capítulo concluído. Estávamos já, terminando a redação do estudo do segundo capítulo quando Delson Biondo veio a falecer em maio de 2014. Assim, as notas comparativas dos textos nerudianos e o estudo do segundo capítulo de “Las vidas del Poeta” não foram concluídos. Penso que a eles nada devo acrescentar.
Arquivo Aberto
Arquivo Aberto à recepção de trabalhos escritos em português ou espanhol que tratem da obra de Pablo Neruda, obedeçam às normas da ABNT e sejam acompanhados de um breve curriculum do autor. Os trabalhos poderão ser enviados para publicação neste Blog pelo e-mail pablonerudabrasil@gmail.com.
30 de janeiro de 2000
Notas de tradução: Cien sonetos de amor (II)
A tradução de Cien sonetos de amor de Pablo Neruda
pelo poeta gaúcho Carlos Nejar, levando em conta o quê parece se constituir uma
evidência – ser um poeta traduzido por
outro poeta – se mostra bem longe de alcançar essa coincidência dos círculos
que seria, sem dúvida, a meta almejada. Na edição da L & PM Pocket de Porto
Alegre, 1999, são muitos os desvios e tanto no que se refere à sintaxe, quanto
ao vocabulário. Estes, devidos, principalmente, às divergências léxicas, as diferenças que existem entre certos
vocábulos parecidos de ambos os
idiomas que levam o tradutor à escolha de uma palavra em português, pela
sua proximidade com o espanhol, ignorando que a semelhança gráfica, prosódica
e, sobretudo, semântica não se realiza. Assim, perejil, por exemplo, cujo significado, em espanhol, é salsa. Na
tradução, aparece como perrexil.
Embora possa ter, segundo o Dicionario
Espanhol/Português da Porto Editora, a conotação de salsa, em português
perrexil não consta no Novo Dicionário
Aurélio ou Caldas Aulete onde
aparece como “aquilo que estimula o apetite”, significado impróprio para o
verso de Pablo Neruda: cruz verde,
perejil de la sombra radiante, luciérnaga
a la unidad del cielo condenada. Como o soneto se inicia Oh Cruz del Sur oh trébol de fósforo fragante e o verso em
questão, por sua vez, com a expressão cruz verde, é evidente que a relação do
poeta é feita entre o Cruzeiro do Sul (e não Cruz do Sul como quer o tradutor)
e a salsa que o vocábulo trébol (trevo), já usado, torna, ainda mais
aceitável na aproximação com a cruz. Isto é, na passagem do verso para o
português não foi levado em conta o poema no seu todo o quê também irá
acontecer outras vezes. Ao traduzir rachas
(vento forte), por aragem (vento
brando) e ráfaga (vento forte e
violento) também por aragem houve um
abrandamento de sentido sem que houvesse razão para isso pois a palavra
borrascas (tempestades) que antecede rachas já sugere uma rajada louca e não uma aragem louca: mi acordeón com borrascas, rachas de lluvia loca por meu acordeão com
borrascas, aragem de chuva louca. Igualmente no soneto LXIX, Pablo Neruda
se dirige à mulher amada, reconhecendo que ela chegou a sua vida brusca, incitante [...] ráfaga de rosal, trigo del viento. Contexto que exige ser ráfaga traduzido por rajada (vento forte) e não aragem (vento brando) o quê é sugerido
pelos adjetivos anteriores e pela expressão trigo
do vento, indicando um movimento mais forte. Quando usa a palavra fornada que numa de suas acepcões pode significar o que o forno coze de uma vez em lugar de padaria, o exato correspondente em português da palavra usada por
Pablo Neruda, o tradutor se aproxima do sentido do verso original (bienamada bandera de las panaderias) mas
foge de um termo que talvez tenha considerado chão. Mas, não levou em
consideração que o poeta chileno se
permite usar as palavras mais simples e usuais para imortalizar as coisas do
cotidiano. Por outro lado, se de certa maneira se aproxima do original ao
traduzir diminutos por pequenos, diminuindo, no entanto, a
força poética da expressão, ao usar bafo
(ar exalado dos pulmões) por vapor (fluído
aeriforme, produzido pela ação do calor), o tradutor limita a idéia do poema
que fala do vapor que se desprende de um boi enterrado no frio e não, apenas,
de seu respirar. A opção por apreende
(compreende) em lugar de aprende
(aprende) igualmente modifica o sentido do verso, pois é diferente la tierra aprende el húmedo destino de una
copa” de a terra apreende o úmido destino de uma taça. Igualmente
curioso é o uso de duas palavras: clave
e araña. Clave
é traduzida por clave. Mas, se no
verso em espanhol o significado é chave,
explicações dos sinais” (y la clave
redonda del rápido universo”) em português, além da conotação relacionada
com as notas musicais, há apenas uma outra: sinal ortográfico mais conhecido
como chave e usar esta conotação se afasta, sem dúvida, do sentido primeiro do
verso original. Quanto à palavra aranha entre as suas conotações está a
mesma daquela em português: animal
artrópode aracnídeo e com este sentido aparece no verso de Pablo Neruda. O soneto LXXV se inicia com o verso Esta es la casa, el mar, y la
bandera. E da casa
irá falar, do reencontro com ela depois de ausências em que foi relegada ao
silêncio e ao abandono. O primeiro terceto diz, ainda dessa volta à vida que
vai acontecendo: Lloró, lloró la casa
noche y dia/ gimió con las arañas entreabierta/ se desgranó desde sus ojos
negros. Não há dúvida que as
aranhas, como os ratos (ainda que mortos), citados num verso anterior, eram
habitantes da casa vazia. O tradutor conserva a palavra com a grafia portuguesa
(aranha) e coloca uma nota de rodapé, explicando que aranhas são pequenas carruagens puxadas por cavalos. Conotação da palavra do espanhol do
Chile, mas também do português: carruagem
leve, de duas rodas, puxadas por um cavalo.
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